Não queria vir direto pra casa. Voltar pra casa tem
sido a última de minhas vontades. Desci então decidido a tomar uma ou duas
cervejas. Fui no Beirute, geralmente o
Adair está por lá. Pedi uma Vodka. Um
grupo de alunos chegou logo em seguida, iam comemorar o aniversário de um
deles. “Professor!... O senhor aqui?”. Tandara, uma moreninha, esguia, olhos
esverdeados. Uma que senta no fundo, quase não fala, está sempre com aquela
outra menina, a Patrícia, aquela que você vive dizendo: “está menina não vem
pra escola, vem fazer ponto”... Tandara sentou-se do meu lado: “Senhor bebe
pinga?” “Não é pinga, é Vodka”, respondi. “Uma cerveja na conta do Borges”,
pediu um dos meninos. “Desculpem-me, mas eu não pago bebida para alunos!” “Não
é o senhor quem diz que só é professor na escola? Então, nós só somos alunos na
escola!” Tandara sorriu-me: “aqui somos Tandara e Borges”, tomando meu copo e
bebelicando: “brhuuu!”. Senti o toque de sua mão sobre minha perna: “É forte
né, desce queimando!”. Apenas sorri-lhe. “Nossa!” “O que ouve?”, perguntei-lhe.
“O teu olhar, senti-me toda dentro dele!”, respondeu-me. “Vê, estou toda
arrepiada!”. Pedi a conta. “Já, nem chegamos!”, Tandara desaprovava-me, fazendo
beiço. Preciso ir, amanhã tenho uma turma pré-vestibular. Paguei a conta,
deixei duas cervejas pagas, sai. “Então, até uma próxima vez Borges”, com uma
inclinação de voz, que pareceu-me um convite. “Até quarta! Não bebam muito, não
façam besteira!”... Vinha pensando naquela cena com Tandara, a sua atitude me
surpreendera. Não era a mesma Tandara do segundo ano, que se anula num fundo de
sala... Senti passos me acompanhando, virei-me uma duas vezes, mas não vi
ninguém... Eu devia ter continuado em frente e vindo pra casa. Voltei ao
Beirute: “eu sabia que você ia voltar!”, sorriu-me Tandara com um copo de
Vodka.
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terça-feira, 22 de maio de 2012
domingo, 6 de maio de 2012
SITUAÇÕES CORRIQUEIRAS
A densa neblina não nos permitiu ver bem. Ouvimos
apenas o baque seco. Quando percebemos o corpo estava lá estatelado. Nunca
ficou provado o suicídio de Lux Aphonso. Durante anos cogitou-se crime
passional, mas também nada se comprovou. O prefeito de plantão alegou
perseguição política, que ele e a primeira dama tinham uma sólida união, e que:
“jamais”, embora Lux Aphonso fosse seu chefe de gabinete, “tive qualquer
contato com este infeliz. Categoricamente: eu não o conhecia”. A primeira dama
também, em prantos, durante uma memorável entrevista, negou qualquer
conhecimento do “sujeito”. “isto é intriga da oposição, que para atingir ‘Lauzinho’,
maculam nossa bela história de amor”. Mas quando lhe perguntaram como ela
poderia não conhecer Lux Aphonso, uma vez que estudaram na mesma escola e mesma
classe do ensino fundamental ao termino do médio: “Ele devia sentar no fundo, eu
era muito aplicada e estudiosa sabe, só prestava atenção aos professores”. Ao fim
passou-se por acidente. Devido a densa neblina Lux Aphonso não percebera a barreira
de proteção e, por descuido, voo do décimo quinto andar. O que não ficou
esclarecido é o que ele fazia àquela hora da noite em um prédio em construção e
o que significava aquela peça de langerie em sua boca. Mas tudo me parece mais
confuso agora, pois posso jurar que acabo de ver sair deste motel, em fim do
mundo, Lux Aphonso de braços dado com – porque eu não tenho uma câmara. Todo
mundo tem! – ‘Lauzinho’, que até hoje não explicou onde foi parar os recursos
para o hospital municipal, que esta com as obra por finalizar desde que Lux
Aphonso ali foi encontrado estatelado.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
A Lei de Newton
Abro
os olhos e incauto percebo que as coisas se mantêm em ordem. As leis que as
regem se mantêm. O copo cheio pela metade, não se esvaziou por todo: não pode!
O liquido que o preenche pela metade não se avoluma e o transborda: não pode. O relógio marca as horas e avisa-me o correr
do tempo. E tenho pouco tempo, alguns minutos
apenas. Sento-me e levando os pés ao chão tateio-o buscando os chinelos no
exato lugar em que os deixo todas as noites. Ligo a rádio e o locutor informa
que é feriado e haverá sol: “A chuva parece ter dado um tempo, para quem vai
curtir o feriado, o dia será de sol”... segue a canção...: “a sensação do
momento...”. Alcanço com os pés os chinelos, calço-os e levanto-me. Abro a
janela e a brisa fria da manhã invade o quarto, arrepia o corpo. Esta tudo em
ordem, nada foi revogado. A natureza mantém suas regras... Tomo o copo verso o
liquido que o preenche pela metade no ralo da pia. O liquido como se deve
esperar escorre para baixo e aos poucos some ante meus olhos. Lavo o copo e o
encho de água. Verso a água na cafeteira, coloco-lhe também o filtro e o café.
Ligo-a, sua luz ascende e em segundos seu rumor característico me informa que
está tudo em ordem. O relógio não para,
o tempo escorre e não o vemos. Tenho pouco tempo, tempo de tomar correndo um
café. Visto-me às presas, tomo de uma golada só o café, desço as escadas
correndo, por pouco perco o ônibus. Esbaforido sento-me e respiro aliviado.
Afora o feriado, que trás um pouco de tranquilidade à cidade, nada está fora do
lugar: “terá desfile, pronunciamentos, programas especiais, sorteio de brindes,
manifestações...”. “Na noite passada”, leio de relance no jornal de um
cavalheiro, “a polícia encontrou mais um corpo de mulher esquartejada próximo
ao Parque das Nações. Segundo informou o delegado responsável pelo caso, ela
tinha tatuado no corpo a lei de Newton: “Dois corpos não cabem no mesmo espaço”.
É o quarto corpo encontrado nos últimos vinte dias com tatuagens similares. A
polícia suspeita...”. Não consegui ler mais nada. Só ouvi o murmúrio do
cavalheiro: “este mundo está perdido. Só Deus o pode salvar...” Levo a mão ao
bolso, encontro a caneta e o bloco de anotações: “A energia não pode ser criada nem destruída: a energia pode apenas transformar-se”,
anoto. Tiro do bolso o canivete e brinco com ele.
terça-feira, 1 de maio de 2012
ANUNCIAÇÃO
Teus olhos melancólicos
acompanhavam o cair da tarde, a fina garoa banhando o gramado e encrespando o lago,
os passos apresados de um casal indo para o ponto de ônibus. Eu lia Hölderlin de uma tradução inglesa…
“And
when Nature appears to sleep at some seasons,
Either in the sky or among plants or nations,
So the aspect of poets is also mournful.
They seem to be alone, but their foreknowledge
continues.
For Natures itself is prescient, as it rests.”…
E quando a Natureza parece dormir
em algumas estações,
Seja no céu ou entre plantas ou
nações,
Assim, também o aspecto dos poetas é triste.
Eles parecem estar sozinhos, mas a sua presciência continua.
A própria Natureza é presciente, quando
repousa.
Do apartamento ao lado vinha o aroma de café coando. “Vamos
ao Capuccino?” Me perguntou. “Deu-me vontade de tomar café e comer daquelas
brioches recheadas que eles vendem”.
“Toda criação, a Natureza sente o entusiasmo
de novo,
De Um-eter do abismo,
Como quando ela nasceu do Caos santo,
De acordo com a lei estabelecida”, recitei-te.
Beijastes-me os lábios com ternura: “Eu te amo! Sabia?”...
“Então, vamos!?, sorrindo me ternamente.
O Capuccino está sempre cheio, a esta hora é dificil
encontrar um bom lugar. As brioches estão, como sempre maravilhosas, pareces
uma criança diante de uma panela de doces...
É saboroso contemplar-te assim quando não te esvai, vagando
o olhar por entre as pessoas e as coisas, procurando-lhes elos. “Eu gosto de
dias assim”, dizes-me, “em que as pessoas andam encolhidas, esfregando as mãos,
estalando os dentes... perdemos um pouco da arrogância, percebemos melhor a
importância das coisas, de um afago, um abraço...”
Proponho-te caminharmos pela ladeira dos bancos e passarmos pela Galeria. Você
se enlaça a meu braço sob o guardachuva: “Só se me pagares um churros!”
“Acabas de comer dois brioches recheados”, retruco, carinhando-te o nariz.
“Deu-me vontade de comer churros!”
Firmaste-te ante uma loja de artigos infantis. Entrates e fuxicastes em
algumas gondolas. “O que achas?”, mostrando-me uma peça que cabe nas palmas de
minha mão...
“Bacana! Pra quem é”, perguntei
“Para alguém que vai gostar muito de brioches e churros...”, sorriste-me.
Meu coração ainda pulsa euforia e incertezas. Com a mão pousada sobre teu
vntre, tento dormir, mas o sono me abandonou: Assomam-me tuas palavras: “serás
pai em breve!"
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