Nas controvérsias
sobre o achamento de nossas terras, há os que defenda que antes dos portugueses
outros navegantes já haviam aportado Tupinambá. Leopoldo, fantasma de família,
que diz ter sido conselheiro de Pedro II, disse-me ter documentos que comprovam
que já no primeiro século um discípulo de Cristo por estas terras andara, mas
como não falava a língua nativa, também desconhecida do Espirito Santo, deixou
uma carta escrita para a posteridade e foi evangelizar a Índia. Segundo Leopoldo,
a dita carta, encontrada por um Jesuíta em uma de suas Reduções, foi enviada a Portugal,
mas se perdera no caminho... Ontem, enquanto preparava-me para a manifestação, e
já pensando como me arrastaria aos lábios de Jandhiele, Leopoldo, com seu
tradicional método de me atrapalhar em minhas conquistas, apareceu-me com um
manuscrito esfacelando-se todo. “Eis meu caro, eis a carta do comentado
evangelizador... Cuidado, cuidado que é uma relíquia, e custou-me uma descida
aos porões de uma embarcação naufragada... Custei a encontrar um marujo que me soubesse
indicar a embarcação correta, pois poucos sabiam deste documento, enviado sob
sigilo... Mas tive a sorte de, no memorável réquiem a Anchieta, resvelar-me no
tal jesuíta que o enviou à corte”. Leopoldo falava com tanta empolgação e eu
preocupado em não me atrasar, porque Jandhiele exigia pontualidade, não conseguia
acompanha-lo. “não te preocupes, não te preocupes, meu amigo, o Judeu errante, o
traduziu. Queria apenas mostrar-te o original. Veja é uma preciosidade de
documento... Deixo-te a tradução, e parto imediatamente, o Magnânimo está às
voltas com a Confederação Argentina, e precisa de meus préstimos.” E, advertindo-me: “Não vai rolar! É assim que vocês dizem hoje?
Não vai rolar, meu caro! Não vai rolar!”, sumiu em gargalhadas. É próprio do Leopoldo estas tiradas. A carta
que ele me deixou está aqui em algum lugar, achando-a eu a leio. Odeio suas
advertências, odeio!
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terça-feira, 18 de junho de 2013
domingo, 16 de junho de 2013
O MONGO
Conversando ontem com o
companheiro Milton Bueno saltou-me a seguinte História
A
maior atração do parque era o incrível homem Mongo. A fila para ver o espetáculo
da transformação do pacato Jrmir em uma fera, não tinha fim. Um cartaz enorme à
entrada da tenda do Mongo advertia cardíacos e congêneres da não indicação
médica para o gênero de diversão. Era vetado também para crianças e mulheres
grávidas. Eu aproveitei o descuido do segurança, que espichou os olhos para o
decote da morena, e a foi acompanhando com o alhar. Entrei de surdina. Por isso
não tive direito à minha porção de vinagre. A tenda em seu interior era toda negra com uma
luz permitindo ver o palco com um cenário familiar de uma sala com sofás e ao
fundo uma porta que nitidamente dava a entender tratar-se de um banheiro. As
luzes apagando-se iniciava o espetáculo, com uma música suave acompanhada da
voz de um locutor que me lembrou Gil Gomes. De início, enquanto o locutor
apresentava Jrmir, encontrado numa selvagem cidade de pedra, em que as pessoas
viviam se degradiando para ver quem podia mais, quem tinha mais, quem mais
proveito tirava até de situações as mais banais. Jrmir em cena aparentava um
sujeito comum, deste que ao domingo vai à missa ou a culto da palavra, joga
bola com amigos, toma umas cervejas e torce, no fim de tarde, pelo seu time,
acompanhando o jogo pela televisão. O espetáculo começa a ficar tenso, quando o
locutor pausa e como se assistíssemos televisão com Jrmir, ouvíssemos o
apresentador anunciar: “Boa noite, o Show da Vida está no ar!” Tudo se escurece
e a porta ao fundo, aquela que indica um banheiro se abre, e notamos que Jrmir
por ela se perde. A narrativa, se torna tensa, a música assume um compasso de
filme de suspense. O locutor anuncia, aterrorizado: “Meu Deus, Jrmir se
transformou na fera”. Foi um pandemônio, o ar empesteou-se de gás de pimenta,
tiros de borracha cruzavam o apertado espaço da tenda, luzes frenéticas e
sirenes ensurdecedoras aumentavam o clima de insegurança e terror. Pessoas corriam desorientadas para fora da
tenda. Jrmir estava apenas vestido de farda.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
ALI QUE ME VEJO
por Dhyne Paiva
A madrugada gélida
novamente me abriga.
Nem mesmo vagando só
... consigo me encontrar.
Não me reconheço.
Encontro-me no fundo
dos seus belos olhos castanhos.
Neles vejo a pessoa
que você tanto ama.
É ali que me vejo.
Encontro-me no seu sorriso.
Naquele sorriso tímido
que você solta quando te elogio.
Nele vejo a resposta das minhas perguntas.
É ali que me vejo.
Encontro-me nos seus braços.
Naqueles abraços de proteção
que você me dá
quando meu olhar muda.
Neles vejo meu lar.
É ali que me vejo.
Encontro-me nos seus lábios.
Naqueles lábios que me dizem
as palavras mais doces.
Naqueles lábios que me concedem
os melhores beijos.
Nestes lábios vejo meu refúgio.
É ali que me vejo.
A madrugada gélida
novamente me abriga.
Nem mesmo vagando só
... consigo me encontrar.
Não me reconheço.
Encontro-me no fundo
dos seus belos olhos castanhos.
Neles vejo a pessoa
que você tanto ama.
É ali que me vejo.
Encontro-me no seu sorriso.
Naquele sorriso tímido
que você solta quando te elogio.
Nele vejo a resposta das minhas perguntas.
É ali que me vejo.
Encontro-me nos seus braços.
Naqueles abraços de proteção
que você me dá
quando meu olhar muda.
Neles vejo meu lar.
É ali que me vejo.
Encontro-me nos seus lábios.
Naqueles lábios que me dizem
as palavras mais doces.
Naqueles lábios que me concedem
os melhores beijos.
Nestes lábios vejo meu refúgio.
É ali que me vejo.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Conclusões de Amethista
Não conheço nenhuma outra razão para amar
senão amar.
(Fernando Pessoa)
Na noite anterior ao
corrente caso eu tomava cerveja e comia um bom petisco na companhia de
Adalberto Soares, Camila Antunes e Jhoana Medeiros. Foi Camila que levantou a
discussão citando o Pessoa: “o que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do
mundo! Se eu soubesse pensaria nisso” ... “O que pensa você sobre morrer de
amor?” Perguntou a mim e ao Adalberto. “O amor”, parafraseando o Pessoa, disse Adalberto:
“o amor é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode
conquista-lo. E a morte é a conclusão de tudo.” Jhoana Medeiros abriu-lhe um
sorriso invejável. Queria eu receber um tal sorriso... Na manhã do corrente
caso acordei com o sorriso desejado a meu canto. Senti-me a melhor pessoa do
mundo, levantei, tomei uma ducha, vesti-me e preparei o café. Jhoana
levantou-se procurando suas peças intimas espalhadas pelo quarto. Entrou
no banheiro e tomou um demorado banho... “Você é o máximo”, beijou-me os lábios
untando-os de batom e abriu aquele sorriso. “Pra mim”, disse-lhe, “morrer
agora, quando o amor apenas aflora, seria perfeito” ... Por um instante os
sentidos se me esvaíram, apaguei como uma vela ao sopro. Foi amor súbito: “Sinto
uma alegria enorme/ Ao pensar que minha morte não tem importância nenhuma”
domingo, 19 de maio de 2013
QUARTO 231
Aos amigos Filé e Jack pela
recepção prazerosa.
A
história que nos contaram foi outra e eu juro que não tive medo.
O
Senhor Filé, de gentileza impar, nos recepcionou e levou-nos até o quarto de nº
231. Enquanto o compadre tomava uma ducha para se refrescar da viagem, eu
repassei alguns pontos da relação que deveria fazer na manhã seguinte. Próximo da janela acompanhava o balançar dos salgueiros
no entardecer de outono. Bateram à porta e eu atendi. Uma garota, por volta de
doze anos, olhar dócil, sorriso trigueiro, pediu-me água. Estranhei mas fui ao
frigobar e peguei um copo de água mineral. Quando voltei com o copo, a menina
não estava mais à porta. Espichei o olhar para fora do quarto, olhei de um lado
para o outro, mas o corredor era vazio. Retomei minha leitura e a contemplar os
salgueiros. No entre tempo, o compadre
terminou o banho e ajustava seus pertences no guarda volumes. Novamente ouvimos
batidas à porta. O compadre atendeu e era a menina pedindo água. Ocorreu o mesmo com o compadre, que ao levar a
água, não encontrou mais a menina. Depois de uma terceira ou quarta repetição
do fato, decidimos deixar a porta aberta com um recado afixado: “se queres água
é só entrar e pegar”. Ao descermos para
a janta, o compadre observou que no balcão da recepção havia um porta retrato com
foto da menina. “Senhor Filé”, comentou
ele jocoso, “tua neta é deveras traquinas!”. “Perdão Senhor”, retrucou o Senhor
Filé, “não entendi!”. “Sua neta”, retomou o compadre, indicando o porta
retrato, “passou a tarde a nos pregar peças”. “Perdoe-me, Senhor! O senhor se
refere à garotinha do porta retrato? Ela não é minha neta não! É minha filha
aos doze anos! ” “Além de traquinas, sua neta se assemelha muito a ela! Uma
bela menina!”, comentei-lhe. “Eu não tenho neta não meu senhor, minha filha,
morreu muito jovem, estava por completar quinze anos”, observou seu Filé. “O senhor está querendo nos dizer que...”, gaguejei.
“Que vocês vão...” Não esperamos a resposta, saindo em disparada, quando ante
nossos olhos seu Filé transformou-se na bela garotinha de olhos esbugalhados e
cordas em mão.
Love Story
Januario estacionou o carro.
Esperou alguns minutos e, impaciente, desceu do carro e aguardou, caminhando de
um lado para o outro. Fumou um dois
cigarros. Praguejou roendo os dentes. Ao longe um vulto foi ganhando forma, foi
aproximando-se. Januario ensaiou um suspiro aliviado, ao mesmo tempo o coração
acelerou, o suor brotou-lhe às mãos. Quando, Cleonice estendeu-lhe o rosto
esperando o beijo, Januario atrapalhou-se todo. Cleonice sorriu... O filme não era dos melhores, e Cleonice aguardava
ansiosa a mão de Januario tocar a sua, esperava algum sussurro em seu ouvido,
esperava... Januario ensaiava, ensaiava, ensaiava, mas o coração acelerava, as
mãos tremiam, a língua se prendia ao palato, serrada entre os dentes... “A epifania
deu-se e o mundo se acabou”, contou-me Januario, da seguinte maneira: “eu não
tinha coragem homem, uma força descomunal prendia-me à cadeira do cinema, sedava-me
de uma inércia descomunal. Mas homem, eu via Cleonice emburrando-se, levantando-se
de seu canto e saindo da sala. Eu exasperei catatônico. Esvaneci, homem! Esvaneci!...
“Nunca
homem nenhum disse-me coisa tão bonita”, dizia-me Cleonice, selando-me um beijo
nos lábios, enquanto o funcionário do cinema me oferecia água.” Cleonice ofereceu-me café, enquanto Januario
me descrevia entre risos as confusões do casamento.
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