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quarta-feira, 12 de junho de 2013

ALI QUE ME VEJO

                                                                                                                         por Dhyne Paiva

 A madrugada gélida
novamente me abriga.
Nem mesmo vagando só
... consigo me encontrar.
Não me reconheço.

Encontro-me no fundo
dos seus belos olhos castanhos.
Neles vejo a pessoa
que você tanto ama.
É ali que me vejo.

Encontro-me no seu sorriso.
Naquele sorriso tímido
que você solta quando te elogio.
Nele vejo a resposta das minhas perguntas.
É ali que me vejo.

Encontro-me nos seus braços.
Naqueles abraços de proteção
que você me dá
quando meu olhar muda.
Neles vejo meu lar.
É ali que me vejo.

Encontro-me nos seus lábios.
Naqueles lábios que me dizem
as palavras mais doces.
Naqueles lábios que me concedem
os melhores beijos.
Nestes lábios vejo meu refúgio.
É ali que me vejo.

 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Conclusões de Amethista


Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. (Fernando Pessoa)

Na noite anterior ao corrente caso eu tomava cerveja e comia um bom petisco na companhia de Adalberto Soares, Camila Antunes e Jhoana Medeiros. Foi Camila que levantou a discussão citando o Pessoa: “o que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu soubesse pensaria nisso” ... “O que pensa você sobre morrer de amor?” Perguntou a mim e ao Adalberto.  “O amor”, parafraseando o Pessoa, disse Adalberto: “o amor é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquista-lo. E a morte é a conclusão de tudo.” Jhoana Medeiros abriu-lhe um sorriso invejável. Queria eu receber um tal sorriso... Na manhã do corrente caso acordei com o sorriso desejado a meu canto. Senti-me a melhor pessoa do mundo, levantei, tomei uma ducha, vesti-me e preparei o café. Jhoana levantou-se procurando suas peças intimas espalhadas pelo quarto.   Entrou no banheiro e tomou um demorado banho... “Você é o máximo”, beijou-me os lábios untando-os de batom e abriu aquele sorriso. “Pra mim”, disse-lhe, “morrer agora, quando o amor apenas aflora, seria perfeito” ... Por um instante os sentidos se me esvaíram, apaguei como uma vela ao sopro. Foi amor súbito: “Sinto uma alegria enorme/ Ao pensar que minha morte não tem importância nenhuma”

 

 

domingo, 19 de maio de 2013

QUARTO 231




Aos amigos Filé e Jack pela recepção prazerosa.

                A história que nos contaram foi outra e eu juro que não tive medo.
                O Senhor Filé, de gentileza impar, nos recepcionou e levou-nos até o quarto de nº 231. Enquanto o compadre tomava uma ducha para se refrescar da viagem, eu repassei alguns pontos da relação que deveria fazer na manhã seguinte.  Próximo da janela acompanhava o balançar dos salgueiros no entardecer de outono. Bateram à porta e eu atendi. Uma garota, por volta de doze anos, olhar dócil, sorriso trigueiro, pediu-me água. Estranhei mas fui ao frigobar e peguei um copo de água mineral. Quando voltei com o copo, a menina não estava mais à porta. Espichei o olhar para fora do quarto, olhei de um lado para o outro, mas o corredor era vazio. Retomei minha leitura e a contemplar os salgueiros.  No entre tempo, o compadre terminou o banho e ajustava seus pertences no guarda volumes. Novamente ouvimos batidas à porta. O compadre atendeu e era a menina pedindo água.  Ocorreu o mesmo com o compadre, que ao levar a água, não encontrou mais a menina. Depois de uma terceira ou quarta repetição do fato, decidimos deixar a porta aberta com um recado afixado: “se queres água é só entrar e pegar”.  Ao descermos para a janta, o compadre observou que no balcão da recepção havia um porta retrato com foto da menina.  “Senhor Filé”, comentou ele jocoso, “tua neta é deveras traquinas!”. “Perdão Senhor”, retrucou o Senhor Filé, “não entendi!”. “Sua neta”, retomou o compadre, indicando o porta retrato, “passou a tarde a nos pregar peças”. “Perdoe-me, Senhor! O senhor se refere à garotinha do porta retrato? Ela não é minha neta não! É minha filha aos doze anos! ” “Além de traquinas, sua neta se assemelha muito a ela! Uma bela menina!”, comentei-lhe. “Eu não tenho neta não meu senhor, minha filha, morreu muito jovem, estava por completar quinze anos”, observou seu Filé.  “O senhor está querendo nos dizer que...”, gaguejei. “Que vocês vão...” Não esperamos a resposta, saindo em disparada, quando ante nossos olhos seu Filé transformou-se na bela garotinha de olhos esbugalhados e cordas em mão.   

Love Story




Januario estacionou o carro. Esperou alguns minutos e, impaciente, desceu do carro e aguardou, caminhando de um lado para o outro.  Fumou um dois cigarros. Praguejou roendo os dentes. Ao longe um vulto foi ganhando forma, foi aproximando-se. Januario ensaiou um suspiro aliviado, ao mesmo tempo o coração acelerou, o suor brotou-lhe às mãos. Quando, Cleonice estendeu-lhe o rosto esperando o beijo, Januario atrapalhou-se todo. Cleonice sorriu...  O filme não era dos melhores, e Cleonice aguardava ansiosa a mão de Januario tocar a sua, esperava algum sussurro em seu ouvido, esperava... Januario ensaiava, ensaiava, ensaiava, mas o coração acelerava, as mãos tremiam, a língua se prendia ao palato, serrada entre os dentes... “A epifania deu-se e o mundo se acabou”, contou-me Januario, da seguinte maneira: “eu não tinha coragem homem, uma força descomunal prendia-me à cadeira do cinema, sedava-me de uma inércia descomunal. Mas homem, eu via Cleonice emburrando-se, levantando-se de seu canto e saindo da sala. Eu exasperei catatônico. Esvaneci, homem! Esvaneci!...   “Nunca homem nenhum disse-me coisa tão bonita”, dizia-me Cleonice, selando-me um beijo nos lábios, enquanto o funcionário do cinema me oferecia água.”    Cleonice ofereceu-me café, enquanto Januario me descrevia entre risos as confusões do casamento.

Essência Mágica

http://guitarraflutuante.blogspot.com.br/2011/08/essencia-magica.html

domingo, 5 de maio de 2013

NORMALIDADE



“A verdade tem a estrutura de uma ficção” (Slavoj Žižek)

No Lajeado o possível sempre foi uma luta como me lembra Christine Ramos: “O impossível é uma luta que travamos todos os dias contra a normalidade, para o possível acontecer”.
Quando era possível, mas não normal, minha mãe tomou-me pela mão, levou-me à escola e disse-me: “filha seja uma boa menina”. Naquela época o normal é que mulheres negras fossem domésticas, e domésticas não precisavam saber ler e escrever.
Quando era possível, mas não normal, Anastácio anunciou ter passado no vestibular.  Naquela época o normal era que os meninos do Lajeado, à idade de Anastácio, ou estivessem mortos ou estivessem presos ou, espremidos nos trens da central, buscando trabalho nos canteiros de obras na grande cidade.
Quando era possível, mas não normal, mãe enfrentou pai: “a menina vai continuar estudando”. Naquela época o normal era as mulheres serem mães-solteiras-viúvas aos quinze anos.
Quando era possível, mas não normal, voltar seguro para casa... O normal era a polícia invadir o Lajeado e bater e matar pretos pobres – e o Capitão Augusto fazia questão de lembrar: “não é uma questão de cor, é de localidade. No Lajeado ou se é marginal ou se é marginal” – Quando era possível, mas não normal, voltar seguro para casa, nos tornamos órfãos.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

VOGAIS (A)


 
Por Antônio Nicodemos

  

Transformado os dias em vogais, andava sem força para ser. Era nova ainda, mas trazia no rosto uma espécie de ódio herdado. Talvez da mãe que não gostava de crianças e que ao saber de sua gravidez passava os dias sentada na mesa da cozinha, a se lamentar pelo que podia ter feito a Deus para que lhe mandasse uma cria naquela altura da vida. E por carregar tanto ódio em si, odiava a menina, que cresceu ouvindo as mesmas lamentações diárias do ódio da mãe e que assim, herdado a antipatia natural da família, era.

Enquanto fingia não se irritar com o barulho da torneira da pia, mexia no crochê da toalha da mesa pensando no que poderia ser diferente em sua criação para que fosse diferente agora.

E como toda boa mal resolvida, culpava a mãe pela sinceridade da infância e acusava a mesma por se quer lhe ter apresentado um pai.

Pronto. Caso encerrado. A culpa de ser o que é e de não ser o que gostaria é da mãe. Pronto. Já é morta mesmo. Melhor culpar a morta, assim não precisaria tomar nenhum tipo de atitude a não ser se lamentar pelo passado e a família.

Depois de passar do meio dia as quatorze remoendo mentiras e inventando recordações da mãe, resolveu “perdoá-la”. E num ato quase de heroína desceu do terceiro andar, atravessou a rua e foi comprar cigarro. 

Estava sem desde a madrugada e se negava a descer pra comprar. Culpa da mãe, que nunca a estimou e jamais pensou se quer em instigá-la a desafios bestas, como o de comprar um maço de cigarros, por exemplo.

Enquanto contava as moedas e reclamava pela falta de uma moeda de vinte e cinco centavos para facilitar a grande audácia de um novo maço foi interrompida.

 - Falta quanto, moça?

- Vinte e cinco.

 - Eu tenho.

Como assim eu tenho, pensou. Um estranho chega e se quer se apresenta e ainda lhe oferece uma moeda de vinte e cinco? Se bem que nem oferece. Foi uma doação. Quase como aquelas caixinhas em fim de ano ou “ajude o lar do c***** a quatro”. Para ela, aquilo foi quase um estupro moral.

-Não precisa.

 - Já dei.

 -Mas não precisa.

 - Você tem a moeda?

-Não.

 -Então? São só vinte e cinco, moça.

 Foi o ápice! Se sentia quase uma prostituta. Pensou no que o moço poderia estar pensando. Como alguém não tem vinte e cinco centavos e ainda sustenta vícios? Não deve valer a água que toma!

 -Eu tenho na bolsa, vou pegar.

-Moça, são só vinte e cinco centavos, calma.

 Quase morre. Mal conhece, nunca viu na vida. Que tipo de intimidade teria dado para que um transeunte atirado lhe pedisse calma? 

 -Eu não quero mais o cigarro, pode ficar pra você.

 -Olha. Espera. Se faz tanta questão dos vinte e cinco...

 O abusado agora lhe estendia a mão. Na espera dos vinte cinco que acabara de emprestar e que jurou que não precisava, que era pra ter calma.

Respirou. Mas não uma vez. Quatro. Culpou a mãe novamente por nunca lhe ter apresentado uma figura masculina que prestasse e que agora lá estava ela, tremendo feito gata que corre de cão por conta da necessidade de socializar poucas palavras e o pior: Por conta de vinte e cinco centavos! 

-Calma.

 Disse o tal a segurando pelo braço.

 Agora já é demais, já é uma audácia e tanto. Segurar pelo braço, sem mais nem menos.

- Escuta, será que eu não posso mais comprar cigarro em Paz?

 - Mas moça, eu só quis ajudar.

 - Pensou se eu queria ajuda?

 - Te vi toda aflita. Natural.

 -Natural é uma ova. Toma os vinte e cinco.

 
O moço, assustado com a aberração que testemunhava não negou, imagina. Recolheu os vinte e cinco e pediu um café, pequeno.

 Ela, fingia ignorar a existência dele, sentou ao lado mas se quer olhava de rabo de olho, estava estática como se a qualquer momento lhe oferecessem sei lá, um pai.

Passada a vergonha do constrangimento por ter sido tão ela naqueles míseros segundos na busca da moeda de ouro disse:

 - O senhor me desculpa, é que me assustei e hoje em dia, já viu.

 - Tudo bem, sem problemas.

 Gelou. Agora tinha percebido a face do moço, já que antes quase o esfaqueou com as unhas em pensamento. Era loiro, olhos claros, barba rala, cara de bolso sem fundo. Tinha a barba por fazer e no tom de voz uma certa audácia velada, dessas que despe sem querer querendo.

Mantinha um sorriso de canto de boca carente e tarado. Depois de passar todos os tipos de pensamentos, e de ter ela achado a questão dele ser loiro um charme:

 - Tenho dessas as vezes, puxei minha mãe.

-Sempre a mãe.

 -Como?

 -Nada não. Ta mais calma?

 -Sim, sim. Não sei o que aconteceu, não dou dessas.

 Mentirosa. Uma vez, tendo passado em frente a um posto de gasolina voltou pra surrar de bolsa o frentista por conta de um simples e sincero: Gostosa.

 -Faz assim, esqueçamos.

-Já não esta mais aqui quem quase apanhou!

Meu Deus. E ainda tinha senso de humor. Não que ela ligasse pra isso, mas tinha. Ao ouvir isso pensou que deveria ter mantido o vestidinho em vez de por a calça pela manhã. Gosta das pernas, se deslumbra quando se banha e até nisso, tem certeza que puxou a mãe.

 -Moço, tem cartão?

 -Cartão?

 Ela pensava agora em algum outro tipo de possibilidade humorista do moço.

 -Preciso fazer uma ligação.

 Era a chance. 

 -Usa o de casa.

 A chance de se redimir pela moeda de vinte e cinco, a chance de se redimir pela grosseria, a chance de anular a imagem de pseudo esquizofrenia, a chance de ter pela primeira vez um desconhecido subindo as escadas e a chance de parecer um pouco menos identicamente gritante, a mãe.


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Antônio Nicodemo

É ator e iniciou sua pesquisa como dramaturgo em 2004, aos dezessete anos, quando fundou a Cia Teatro da Neura, onde continua em pesquisa até hoje. Em 2011, iniciou suas experiências como diretor em A Menina da Cabeça de Bola (Prêmio Ensaiando Um País Melhor), e seguiu com a direção do novo espetáculo do grupo, O Velório (ProaC), onde também assina a dramaturgia. Atualmente, também mantém a página "Pra eu dormir" com contos, crônicas e pensamentos. Facebook: Antônio Lagreca Nicodemo.