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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

CAOS PRIMORDIAL

Para Alexandre Squara

No principio era o CAOS, e o caos apenas era, não tinha titulo, não tinha nome. O CAOS era. Então veio a palavra, gerada, não criada; caos do caos.

“... graças às palavras, o mistério da natureza revela-se um pouco; pois nas próprias palavras reside uma parte das virtudes que elas designavam. Pronunciá-las ou escrevê-las de certa forma acaba por dar acesso aos segredos que elas recobrem, do mesmo modo que perceber as semelhanças abre caminho para o conhecimento das coisas...” (François Jacob).

A palavra não diz tudo, não revela a plenitude, revela olhares, percepções, sentimentos do espectador ante o percebido. Não diz só a coisa vista, diz mais de quem a ela admira (surpreende-se).

A Palavra era é será
A palavra não diz tudo, não revela a plenitude, revela olhares, percepções, sentimentos do espectador ante o percebido. Não diz só a coisa vista, diz mais de quem a ela admira (surpreende-se).

A Palavra era é será CAOS PRIMORDIAL!

Claudio Domingos

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


Confira o belo curta de Matheus Borges

http://www.youtube.com/watch?v=FZ2u4X4Z0bw&feature=player_embedded

...onde o Pii acaba mesmo?



Hoje, durante a tarde, zapeando os canais de Tv (que aliás, andam péssimos), paro em um deles... o apresentador fala (o cinegrafista mostra): Paranapiacaba; atentei "será que ele vai revelar onde o pii acaba?" (e me ri por dentro) - Não, me enganei... alguns lugares 'familiares', uma ou outra viela na lembrança... playground, gira-gira, balança... eis a história que um morador/comerciante contava com voz rouca:
"No carnaval de 2008, meu bar tava cheio, umas 15 pessoas tomando cerveja e conversando, era mais ou menos 21:00, um amigo meu (Ricardo), encosta na janela com um copo na mão... olha pro parquinho, não tinha ninguém, estava vazio, mas a balança infantil estava balançando... Ricardo nos chama pra ver... "Já tá bêbado Ricardão? Tá cedo ainda..." - ironiza...
ram alguns amigos. Curiosos, vamos até a dita janela... e num é que balançava mesmo?! Impressionaste... porque a balança tem umas correntes grossas... Aí Ricardo diz: "Vamos até lá?" Fomos... tava tudo meio escuro... um dos clientes teve a ideia de levar uma câmera que tinha na mão e iluminar um pouco o lugar com o flash da máquina... Devagarzinho íamos nos aproximando (e o flash disparando), chegamos bem pertinho, continuava balançando... não vimos nada! nadinha! Voltamos pro bar morrendo de rir da cara do Ricardão... ele ficou meio encucado o resto da noite com a história..."

Algum tempo depois, o cliente da câmera resolveu revelar as fotos daquela noite... Numa outra ocasião, voltou ao bar e e trouxe algumas pra gente ver... Uma em especial chamou nossa atenção... era uma foto da tal balança que o Ricardo tinha visto se mexendo sozinha... Nela um menino vestido de branco e com sapatinhos antigos, sentado, divertindo-se!...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Sevgilinin Yüzü

"Eu vou me matar! é só uma frase de efeito!", disse Sevgilinin Yüzü, "a morte não transfere responsabilidade"! E pulou. O sol modorrento de inverno apenas beijou-lhe complacente. E os prédios indiferentes mantiveram sua concretude inalterada... No mais o dia terminou como todos os outros. Os que se seguiram silenciaram um ato livre...

domingo, 5 de agosto de 2012

OCO DA TERRA

Eu nasci e vivi longo tempo de minha vida no Oco da Terra, um lugar úmido, sombrio, silencioso. Sons abafados chegavam-nos sem nos dar conta. Flash de luz de quando em quando nos alcançava as vistas.  Em Oco da Terra não havia palavra, apenas murmúrios tão surdos e incompreensíveis quanto os rumores que nos chegavam.  O olhar opaco, lúgubre, vazio era nossa linguagem.  Certa feita um estrangeiro, dizendo-se um dos nossos, desceu a Oco da Terra. Usou gestos e sons que não conhecíamos. Os sons era palavra – hoje eu o sei –,   e  doíam-nos os ouvidos incompreensíveis. Avançamos sobre o estrangeiro que se fazia como um de nós e o matamos. Depois disto, surgiram alguns que diziam ser este Aquele que nos viera apontar um outro mundo, um mundo preparado para nós, para além de Oco da Terra. Um mundo em que os sons abafados tinham sentido, o olhar brilhava invadido de luz.  Era preciso coragem para atravessar as frestas luminosas de Oco da Terra. Muitos haviam tentado depois que o estrangeiro que se dizia um de nós e que matamos nos visitou, nenhum havia voltado. Sem despedir-me dos meus – não me deixariam partir –, esperei o primeiro raio de luz e os primeiros rumores; lancei-me numa fresta.  À medida que avançava os rumores se intensificavam; meus ouvidos doíam, doíam, doíam. A luz, ao contrário, ia atenuando-se, e, a um certo momento, desapareceu. Não fossem os rumores cada vez mais altos, sentir-me-ia em Oco da Terra.  Meus ouvidos doíam, doíam, doíam. Estava decidido, estourassem-me a cabeça, iria até o fim.  Houve duas alternâncias de luzes intensas até seu desaparecimento até chegar a este mundo. Era noite, agora eu sei, quando venci minha jornada. O céu era cinza, e os rumores atenuados. Grilos, sapos, buzinas, risos, vozes, se confundiam a meu grito... Muitas vezes pensei em voltar para Oco da Terra, mas sei que os meus não me reconheceriam e o meu destino seria o mesmo do nosso que visto por estrangeiro o matamos. Aqui aprendi palavra e sei das coisas e dou-lhes nome. O mundo não é sombra e murmúrio: O mundo é discurso. E o discurso nos preenche de sentido, de certezas, de verdades. Em Oco da Terra tudo é o mesmo, e o mesmo é ordem.  Sinto saudades de Oco da Terra, do som abafado que nos chegavam, dos poucos raios de luz entre frestas, de sua umidade, do seu silencioso murmúrio. Sinto falta da sinceridade opaca, lúgubre e vazia do olhar dos meus. Aqui sou estrangeiro, lá, agora seria estrangeiro.  As palavras me encantam, mas estas luzes todas apenas afastam as sombras das coisas não as eliminam de mim. Oco da Terra é em mim. Outro dia me perguntaram: “Que lugar habita em ti?” Oco da Terra habita em mim. Meu grito é murmúrio e a luz de meus olhos opaca, lúgubre e vazia, diz-me: “És Oco, Opaco e Lúgubre. Palavras não te iluminam e preenchem. O silencioso vazio te preenche”. Não sou mais para os meus, a este mundo eu não pertenço. Sou Oco valendo-se de palavras.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Sobre Literatura ou não

Eu sou um sujeito que não sabe das coisas, eu sou um sujeito que as quer saber.

(Rodner Lucio)



Para Fabio Miguel



Eu gosto de criar imagens, e gosto de alguns objetos: copos, facas, cadeiras, cama e algumas situações: Frestas de portas, aroma de café, fins de tarde após uma chuva repentina e passageira e o cheiro de tijolos molhados que impregnam o ar. Eu gosto da ideia de água brotando, escorrendo, avolumando-se. Eu gosto da cena da navalha percorrendo a pele. E navalha e língua para mim se confundem.  Quando eu pego um copo nas mãos, eu procuro intuir-lhe possibilidades que não sejam próprias do copo. Nele inebrio-me de amores que tive e de amores que não terei, estilhaço-o em mil pedaços e o recomponho, celebro a redenção do ser e tramo a sua morte, reúno os amigos, conspiro contra os governos, deixo pousado uma flor: “sou um copo no qual uma flor pousa”, uma das primeiras coisas que escrevi para Ione. A água que cai do chuveiro e escorre por meu corpo e leva algo de mim pelo ralo é como seu corpo quente, úmido, languido e toda vez que se vai, fechando a porta por trás de mim, algo de mim vai contigo. A literatura não sei defini-la a não ser assim, porque é uma arte, e eu deveria entender então o que é arte. Mas sou como a formiga que não sabe o que é trabalho e trabalha. A criação é um ato não apenas desnecessário e voluntário é sobretudo um ato ignorado. A onisciência do criador é ignorar que cria. Eu não sou escritor, não sou poeta, eu sou como formiga cortando folha. Se perguntarmos à formiga o porquê dela cortar folhas, se puder dar-nos uma resposta será com uma outra pergunta:  “então é folhas que eu corto?” Eu quero saber das coisas sem uma gramática necessária. Eu não sei das coisas, elas estão ante mim e dizem de si, dês-(es)crevê-las é não dizê-las como elas são, mas como elas se me apresentam, as coisas não se dizem toda do ângulo em que se me apresentam, tem faces das coisas que eu não alcanço. Eu as desdobro, eu as penso como poderiam ser se não fossem o que aparentam ser. O Tales e o Victor jogam com isto o tempo todo e eu me deixo influenciar por eles. É, então, literatura o desdobro da realidade presente, é decompor o em si das coisas (não me peça para explicar o que seja este em si, porque eu não sei: a formiga não sabe que folha é folha, penso eu.) vislumbrando os seus possíveis. Forjar realidades outras nas realidades presentes é, de repente, sem o saber, criar. Ninguém se coloca diante de algo e diz: “agora produzirei uma obra de arte”, isto é presunção. “O que será que posso tirar disto?” é a atitude do criador, a sua arte. É criação apenas o impensado, o que escapou ao planejado. A criação independe da vontade do criador. Eu me proponho a escrever um texto magnífico e me sai uma patifaria Eu traço algumas linhas, por vicio quase, e eis a obra que se inscreverá nos séculos. O que eu sei sobre literatura então é isto: é a arte de compor textos que retratam não a realidade, mas realidades possíveis, e que de quando em quando, doa-nos algo magnífico e significativo como a Divina Comédia, Don Quixote de La Mancha, Grandes Sertões Veredas, Sentimento do Mundo. Eu não sou literato, escrevo sem ser escritor, brinco, como o Tales com sua cadeira-carro-cavalo-condelijo do Max Stell, com as palavras e com as coisas apenas para sabê-las.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A cadeira

A cadeira, eu disse a cadeira, não uma cadeira, ou esta cadeira. A cadeira estava próximo da janela, qualquer janela..., uma janela ou é janela ou não é. A cadeira estava próxima da janela e este menino, este que está aqui do meu lado e me chama de paie e não para de falar um instante, e diz que vai arrumar o seu carro, que não é um carro, mas uma almofada, e que deixou de ser almofada, porque este menino, que me chama de paie e não para de falar, já arrumou um parafuso, que não é parafuso mas uma “chafe da polícia” e a policia pulou na pixina que é o tapete, não um tapete ou este tapete, mas o tapete,  a pegou e a arrastou. A cadeira estava perto da janela e este menino que não para de falar e me chama de paie a arrastou pela casa, porque para ele a cadeira, não esta cadeira ou uma cadeira, a cadeira não é, pois que a transforma em cavalo, e não há cavalo algum aqui para que eu possa dizer “a transforma neste cavalo”, então a cadeira é cavalo e agora é carro e este menino que agora canta “num lava o pé, num lava num qué... que sulé.., está indo ao mercado, que é o quarto, em seu carro-cavalo- cadeira. “Quem não lava o pé filhinho?” “É  Maco Monka Piikita... num lava, num qué...”