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sexta-feira, 14 de setembro de 2012
...onde o Pii acaba mesmo?
Hoje, durante a tarde, zapeando os canais de Tv (que aliás, andam péssimos), paro em um deles... o apresentador fala (o cinegrafista mostra): Paranapiacaba; atentei "será que ele vai revelar onde o pii acaba?" (e me ri por dentro) - Não, me enganei... alguns lugares 'familiares', uma ou outra viela na lembrança... playground, gira-gira, balança... eis a história que um morador/comerciante contava com voz rouca:
"No carnaval de 2008, meu bar tava cheio, umas 15 pessoas tomando cerveja e conversando, era mais ou menos 21:00, um amigo meu (Ricardo), encosta na janela com um copo na mão... olha pro parquinho, não tinha ninguém, estava vazio, mas a balança infantil estava balançando... Ricardo nos chama pra ver... "Já tá bêbado Ricardão? Tá cedo ainda..." - ironiza...
ram alguns amigos. Curiosos, vamos até a dita janela... e num é que balançava mesmo?! Impressionaste... porque a balança tem umas correntes grossas... Aí Ricardo diz: "Vamos até lá?" Fomos... tava tudo meio escuro... um dos clientes teve a ideia de levar uma câmera que tinha na mão e iluminar um pouco o lugar com o flash da máquina... Devagarzinho íamos nos aproximando (e o flash disparando), chegamos bem pertinho, continuava balançando... não vimos nada! nadinha! Voltamos pro bar morrendo de rir da cara do Ricardão... ele ficou meio encucado o resto da noite com a história..."
Algum tempo depois, o cliente da câmera resolveu revelar as fotos daquela noite... Numa outra ocasião, voltou ao bar e e trouxe algumas pra gente ver... Uma em especial chamou nossa atenção... era uma foto da tal balança que o Ricardo tinha visto se mexendo sozinha... Nela um menino vestido de branco e com sapatinhos antigos, sentado, divertindo-se!...
Algum tempo depois, o cliente da câmera resolveu revelar as fotos daquela noite... Numa outra ocasião, voltou ao bar e e trouxe algumas pra gente ver... Uma em especial chamou nossa atenção... era uma foto da tal balança que o Ricardo tinha visto se mexendo sozinha... Nela um menino vestido de branco e com sapatinhos antigos, sentado, divertindo-se!...
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Sevgilinin Yüzü
"Eu vou me matar! é só uma frase de efeito!", disse Sevgilinin Yüzü, "a morte não transfere responsabilidade"! E pulou. O sol modorrento de inverno apenas beijou-lhe complacente. E os prédios indiferentes mantiveram sua concretude inalterada... No mais o dia terminou como todos os outros. Os que se seguiram silenciaram um ato livre...
domingo, 5 de agosto de 2012
OCO DA TERRA
Eu nasci e vivi longo tempo de
minha vida no Oco da Terra, um lugar úmido, sombrio, silencioso. Sons abafados
chegavam-nos sem nos dar conta. Flash de luz de quando em quando nos alcançava
as vistas. Em Oco da Terra não havia
palavra, apenas murmúrios tão surdos e incompreensíveis quanto os rumores que
nos chegavam. O olhar opaco, lúgubre,
vazio era nossa linguagem. Certa feita
um estrangeiro, dizendo-se um dos nossos, desceu a Oco da Terra. Usou gestos e
sons que não conhecíamos. Os sons era palavra – hoje eu o sei –, e doíam-nos os ouvidos incompreensíveis. Avançamos
sobre o estrangeiro que se fazia como um de nós e o matamos. Depois disto, surgiram
alguns que diziam ser este Aquele que nos viera apontar um outro mundo, um
mundo preparado para nós, para além de Oco da Terra. Um mundo em que os sons abafados
tinham sentido, o olhar brilhava invadido de luz. Era preciso coragem para atravessar as frestas
luminosas de Oco da Terra. Muitos haviam tentado depois que o estrangeiro que se
dizia um de nós e que matamos nos visitou, nenhum havia voltado. Sem
despedir-me dos meus – não me deixariam partir –, esperei o primeiro raio de
luz e os primeiros rumores; lancei-me numa fresta. À medida que avançava os rumores se intensificavam;
meus ouvidos doíam, doíam, doíam. A luz, ao contrário, ia atenuando-se, e, a um
certo momento, desapareceu. Não fossem os rumores cada vez mais altos, sentir-me-ia
em Oco da Terra. Meus ouvidos doíam, doíam,
doíam. Estava decidido, estourassem-me a cabeça, iria até o fim. Houve duas alternâncias de luzes intensas até
seu desaparecimento até chegar a este mundo. Era noite, agora eu sei, quando
venci minha jornada. O céu era cinza, e os rumores atenuados. Grilos, sapos,
buzinas, risos, vozes, se confundiam a meu grito... Muitas vezes pensei em
voltar para Oco da Terra, mas sei que os meus não me reconheceriam e o meu
destino seria o mesmo do nosso que visto por estrangeiro o matamos. Aqui
aprendi palavra e sei das coisas e dou-lhes nome. O mundo não é sombra e murmúrio:
O mundo é discurso. E o discurso nos preenche de sentido, de certezas, de
verdades. Em Oco da Terra tudo é o mesmo, e o mesmo é ordem. Sinto saudades de Oco da Terra, do som
abafado que nos chegavam, dos poucos raios de luz entre frestas, de sua umidade,
do seu silencioso murmúrio. Sinto falta da sinceridade opaca, lúgubre e vazia
do olhar dos meus. Aqui sou estrangeiro, lá, agora seria estrangeiro. As palavras me encantam, mas estas luzes todas
apenas afastam as sombras das coisas não as eliminam de mim. Oco da Terra é em
mim. Outro dia me perguntaram: “Que lugar habita em ti?” Oco da Terra habita em
mim. Meu grito é murmúrio e a luz de meus olhos opaca, lúgubre e vazia, diz-me:
“És Oco, Opaco e Lúgubre. Palavras não te iluminam e preenchem. O silencioso
vazio te preenche”. Não sou mais para os meus, a este mundo eu não pertenço.
Sou Oco valendo-se de palavras.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Sobre Literatura ou não
Eu sou
um sujeito que não sabe das coisas, eu sou um sujeito que as quer saber.
(Rodner
Lucio)
Para
Fabio Miguel
Eu
gosto de criar imagens, e gosto de alguns objetos: copos, facas, cadeiras, cama
e algumas situações: Frestas de portas, aroma de café, fins de tarde após uma
chuva repentina e passageira e o cheiro de tijolos molhados que impregnam o ar.
Eu gosto da ideia de água brotando, escorrendo, avolumando-se. Eu gosto da cena
da navalha percorrendo a pele. E navalha e língua para mim se confundem. Quando eu pego um copo nas mãos, eu procuro
intuir-lhe possibilidades que não sejam próprias do copo. Nele inebrio-me de
amores que tive e de amores que não terei, estilhaço-o em mil pedaços e o
recomponho, celebro a redenção do ser e tramo a sua morte, reúno os amigos, conspiro
contra os governos, deixo pousado uma flor: “sou um copo no qual uma flor pousa”,
uma das primeiras coisas que escrevi para Ione. A água que cai do chuveiro e
escorre por meu corpo e leva algo de mim pelo ralo é como seu corpo quente, úmido,
languido e toda vez que se vai, fechando a porta por trás de mim, algo de mim
vai contigo. A literatura não sei defini-la a não ser assim, porque é uma arte,
e eu deveria entender então o que é arte. Mas sou como a formiga que não sabe o
que é trabalho e trabalha. A criação é um ato não apenas desnecessário e
voluntário é sobretudo um ato ignorado. A onisciência do criador é ignorar que
cria. Eu não sou escritor, não sou poeta, eu sou como formiga cortando folha. Se
perguntarmos à formiga o porquê dela cortar folhas, se puder dar-nos uma
resposta será com uma outra pergunta: “então
é folhas que eu corto?” Eu quero saber das coisas sem uma gramática necessária.
Eu não sei das coisas, elas estão ante mim e dizem de si, dês-(es)crevê-las é
não dizê-las como elas são, mas como elas se me apresentam, as coisas não se
dizem toda do ângulo em que se me apresentam, tem faces das coisas que eu não
alcanço. Eu as desdobro, eu as penso como poderiam ser se não fossem o que
aparentam ser. O Tales e o Victor jogam com isto o tempo todo e eu me deixo
influenciar por eles. É, então, literatura o desdobro da realidade presente, é
decompor o em si das coisas (não me peça para explicar o que seja este em si,
porque eu não sei: a formiga não sabe que folha é folha, penso eu.) vislumbrando
os seus possíveis. Forjar realidades outras nas realidades presentes é, de repente,
sem o saber, criar. Ninguém se coloca diante de algo e diz: “agora produzirei
uma obra de arte”, isto é presunção. “O que será que posso tirar disto?” é a
atitude do criador, a sua arte. É criação apenas o impensado, o que escapou ao
planejado. A criação independe da vontade do criador. Eu me proponho a escrever
um texto magnífico e me sai uma patifaria Eu traço algumas linhas, por vicio
quase, e eis a obra que se inscreverá nos séculos. O que eu sei sobre
literatura então é isto: é a arte de compor textos que retratam não a
realidade, mas realidades possíveis, e que de quando em quando, doa-nos algo magnífico
e significativo como a Divina Comédia, Don Quixote de La Mancha, Grandes
Sertões Veredas, Sentimento do Mundo. Eu não sou literato, escrevo sem ser
escritor, brinco, como o Tales com sua cadeira-carro-cavalo-condelijo do Max
Stell, com as palavras e com as coisas apenas para sabê-las.
terça-feira, 26 de junho de 2012
A cadeira
A
cadeira, eu disse a cadeira, não uma cadeira, ou esta cadeira. A cadeira estava
próximo da janela, qualquer janela..., uma janela ou é janela ou não é. A
cadeira estava próxima da janela e este menino, este que está aqui do meu lado
e me chama de paie e não para de falar um instante, e diz que vai arrumar o seu
carro, que não é um carro, mas uma almofada, e que deixou de ser almofada,
porque este menino, que me chama de paie e não para de falar, já arrumou um
parafuso, que não é parafuso mas uma “chafe da polícia” e a policia pulou na pixina
que é o tapete, não um tapete ou este tapete, mas o tapete, a pegou e a arrastou. A cadeira estava perto
da janela e este menino que não para de falar e me chama de paie a arrastou
pela casa, porque para ele a cadeira, não esta cadeira ou uma cadeira, a
cadeira não é, pois que a transforma em cavalo, e não há cavalo algum aqui para
que eu possa dizer “a transforma neste cavalo”, então a cadeira é cavalo e
agora é carro e este menino que agora canta “num lava o pé, num lava num qué...
que sulé.., está indo ao mercado, que é o quarto, em seu carro-cavalo- cadeira.
“Quem não lava o pé filhinho?” “É Maco
Monka Piikita... num lava, num qué...”
sábado, 23 de junho de 2012
O Andarilho
Por MARCO MAIDA:
http://luisclaudiopt.blogspot.com.br/2012/06/papocom-marco-maida.html?spref=fb
Por um tratado sobre a impossibilidade da redenção
Condenados. É a condição de necessidade para qualquer pessoa. Nem todos são conscientes, mas são condenados. Impossível não sê-lo.
Condenados a ex-istir. Essa é a pior prisão, estar fora de si.
Pretendendo ser real, acreditamos que a coexistência nos co-loca em condição adequada. Percebemo-nos desde ai como sendo moradores de um lugar que já não é mais um si mesmo, mas outro. Fora de si é onde devemos morar; ex-sistir. Somos condenados, desde a condição de animais políticos a nos permitir ex-genia. A prisão que nega a cada um porque o outro é a referencia. Vejam, as pessoas andam e falam como se tivessem certeza de se comunicar. Impossível a comunicação. Reverberamos coisas para nos fazer acreditar ainda uma vez que a totalidade do real só pode nos permitir quando negamos, quando nos negamos. Não sou em absoluto, e sou condenado a não ser, para permitir a emergência do Outro, com um rosto que eu não reconheço, uma vida que não decidi ter, mas que me é oferecida como dom, como a minha verdade. Minha ex-sistencia Condenado em absoluto.
Não há redenção. Nenhuma força é possível para me a-locar de volta. Não há retorno. Por tanto que se suplique a volta do redentor, ele não vem, ..., ele não vem, ... e não deve vir mesmo, pois se vir nos impedira ainda uma vez de voltar para dentro, porque nos julgara pelos nossos atos usando as suas leis. Uma vez me disseram que o redentor já tinha vindo, e morreu na cruz para salvar as pessoas. Não entendi; se alguém tem que morrer esse alguém sou eu. Porque outra pessoa o faria em meu lugar?
Condenados ao exílio da única pátria, de nosso corpo, precisamos sair, precisamos encontrar as outras pessoas. E para isso é impossível ser sem ser aquilo que nos é determinado.
A flutuação do Mercado, e as suas imprevisibilidades não tem condição de representar o inframundo, os dois oscilam e são imprevisíveis, mas não de forma simétrica possibilitando analogia imediata, ..., não, não somos mercado oscilante, somos interioridade incomunicacional. Não somos Nec-ocio, mas ócio.
Certa feita percebi que um sociólogo defendia a redenção do trabalho: “o trabalho é bom, a Revolução industrial é que não conseguiu dar conta de um trabalho humanizado. Mas hoje, seres históricos que somos, conseguimos considerar aspectos redentores do processo de criação humana, e devolver ao ser humano o que lhe é mais precioso, a capacidade de criar.” Obtuso! Não percebe que ele é mais um dos que foi cooptado pela grande massa e acredita que é na ex-pressão que o ser humano se realiza. Não, só nos realizamos na in-trospecção, na ausência de expressão. Somos anteriores a linguagem, a verdade, a religião, a política, não somos nada disso que os artistas expressam com a sua técnica; maldito polegar opositor!
Não me senti minimamente tentado a ser profeta da ausência de redenção. Sabe essa história meio Zaratustra que sai em busca de Deus com o lampião aceso com o sol em pico; pois então, para alguns isso funcionou algum dia, anunciar o fim das grandes narrativas e das arquiteturas mundo firmadas como a apoteose universal. Mas as grandes narrativas continuarão a existir por mais que Zaratustra continue gritando.
Somos condenados a não ser nós mesmos e nenhum recurso é capaz de nos redimir.
Marco Maida é professor de filosofia, integrante da Associação Cultural Rastilho (A_CURA), mestrando na Faculdade de Educação da USP, autor do livro Memórias de Onã.
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