Januario estacionou o carro.
Esperou alguns minutos e, impaciente, desceu do carro e aguardou, caminhando de
um lado para o outro. Fumou um dois
cigarros. Praguejou roendo os dentes. Ao longe um vulto foi ganhando forma, foi
aproximando-se. Januario ensaiou um suspiro aliviado, ao mesmo tempo o coração
acelerou, o suor brotou-lhe às mãos. Quando, Cleonice estendeu-lhe o rosto
esperando o beijo, Januario atrapalhou-se todo. Cleonice sorriu... O filme não era dos melhores, e Cleonice aguardava
ansiosa a mão de Januario tocar a sua, esperava algum sussurro em seu ouvido,
esperava... Januario ensaiava, ensaiava, ensaiava, mas o coração acelerava, as
mãos tremiam, a língua se prendia ao palato, serrada entre os dentes... “A epifania
deu-se e o mundo se acabou”, contou-me Januario, da seguinte maneira: “eu não
tinha coragem homem, uma força descomunal prendia-me à cadeira do cinema, sedava-me
de uma inércia descomunal. Mas homem, eu via Cleonice emburrando-se, levantando-se
de seu canto e saindo da sala. Eu exasperei catatônico. Esvaneci, homem! Esvaneci!...
“Nunca
homem nenhum disse-me coisa tão bonita”, dizia-me Cleonice, selando-me um beijo
nos lábios, enquanto o funcionário do cinema me oferecia água.” Cleonice ofereceu-me café, enquanto Januario
me descrevia entre risos as confusões do casamento.
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domingo, 19 de maio de 2013
domingo, 5 de maio de 2013
NORMALIDADE
“A
verdade tem a estrutura de uma ficção” (Slavoj Žižek)
No Lajeado o possível sempre
foi uma luta como me lembra Christine Ramos: “O impossível é uma luta que
travamos todos os dias contra a normalidade, para o possível acontecer”.
Quando era possível, mas não
normal, minha mãe tomou-me pela mão, levou-me à escola e disse-me: “filha seja
uma boa menina”. Naquela época o normal é que mulheres negras fossem
domésticas, e domésticas não precisavam saber ler e escrever.
Quando era possível, mas não
normal, Anastácio anunciou ter passado no vestibular. Naquela época o normal era que os meninos do
Lajeado, à idade de Anastácio, ou estivessem mortos ou estivessem presos ou, espremidos
nos trens da central, buscando trabalho nos canteiros de obras na grande cidade.
Quando era possível, mas não
normal, mãe enfrentou pai: “a menina vai continuar estudando”. Naquela época o
normal era as mulheres serem mães-solteiras-viúvas aos quinze anos.
Quando era possível, mas não
normal, voltar seguro para casa... O normal era a polícia invadir o Lajeado e bater
e matar pretos pobres – e o Capitão Augusto fazia questão de lembrar: “não é uma
questão de cor, é de localidade. No Lajeado ou se é marginal ou se é marginal” –
Quando era possível, mas não normal, voltar seguro para casa, nos tornamos órfãos.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
VOGAIS (A)
Transformado
os dias em vogais, andava sem força para ser. Era nova ainda, mas trazia no
rosto uma espécie de ódio herdado. Talvez da mãe que não gostava de crianças e
que ao saber de sua gravidez passava os dias sentada na mesa da cozinha, a se
lamentar pelo que podia ter feito a Deus para que lhe mandasse uma cria naquela
altura da vida. E por carregar tanto ódio em si, odiava a menina, que cresceu
ouvindo as mesmas lamentações diárias do ódio da mãe e que assim, herdado a
antipatia natural da família, era.
Enquanto
fingia não se irritar com o barulho da torneira da pia, mexia no crochê da
toalha da mesa pensando no que poderia ser diferente em sua criação para que
fosse diferente agora.
E como
toda boa mal resolvida, culpava a mãe pela sinceridade da infância e acusava a
mesma por se quer lhe ter apresentado um pai.
Pronto.
Caso encerrado. A culpa de ser o que é e de não ser o que gostaria é da mãe.
Pronto. Já é morta mesmo. Melhor culpar a morta, assim não precisaria tomar
nenhum tipo de atitude a não ser se lamentar pelo passado e a família.
Depois de
passar do meio dia as quatorze remoendo mentiras e inventando recordações da
mãe, resolveu “perdoá-la”. E num ato quase de heroína desceu do terceiro andar,
atravessou a rua e foi comprar cigarro.
Estava
sem desde a madrugada e se negava a descer pra comprar. Culpa da mãe, que nunca
a estimou e jamais pensou se quer em instigá-la a desafios bestas, como o de
comprar um maço de cigarros, por exemplo.
Enquanto
contava as moedas e reclamava pela falta de uma moeda de vinte e cinco centavos
para facilitar a grande audácia de um novo maço foi interrompida.
- Vinte e cinco.
Como
assim eu tenho, pensou. Um estranho chega e se quer se apresenta e ainda lhe
oferece uma moeda de vinte e cinco? Se bem que nem oferece. Foi uma doação.
Quase como aquelas caixinhas em fim de ano ou “ajude o lar do c***** a quatro”.
Para ela, aquilo foi quase um estupro moral.
-Não
precisa.
-Não.
-Moça,
são só vinte e cinco centavos, calma.
Respirou.
Mas não uma vez. Quatro. Culpou a mãe novamente por nunca lhe ter apresentado
uma figura masculina que prestasse e que agora lá estava ela, tremendo feito
gata que corre de cão por conta da necessidade de socializar poucas palavras e
o pior: Por conta de vinte e cinco centavos!
-Calma.
- Escuta,
será que eu não posso mais comprar cigarro em Paz?
O moço,
assustado com a aberração que testemunhava não negou, imagina. Recolheu os
vinte e cinco e pediu um café, pequeno.
Passada a
vergonha do constrangimento por ter sido tão ela naqueles míseros segundos na
busca da moeda de ouro disse:
Mantinha
um sorriso de canto de boca carente e tarado. Depois de passar todos os tipos
de pensamentos, e de ter ela achado a questão dele ser loiro um charme:
-Sempre a
mãe.
-Já não
esta mais aqui quem quase apanhou!
Meu Deus.
E ainda tinha senso de humor. Não que ela ligasse pra isso, mas tinha. Ao ouvir
isso pensou que deveria ter mantido o vestidinho em vez de por a calça pela
manhã. Gosta das pernas, se deslumbra quando se banha e até nisso, tem certeza
que puxou a mãe.
---
Antônio Nicodemo
É ator e
iniciou sua pesquisa como dramaturgo em 2004, aos dezessete anos, quando fundou
a Cia Teatro da Neura, onde continua em pesquisa até hoje. Em 2011, iniciou
suas experiências como diretor em A Menina da Cabeça de Bola (Prêmio Ensaiando
Um País Melhor), e seguiu com a direção do novo espetáculo do grupo, O Velório
(ProaC), onde também assina a dramaturgia. Atualmente, também mantém a página
"Pra eu dormir" com contos, crônicas e
pensamentos. Facebook: Antônio Lagreca Nicodemo.
domingo, 10 de março de 2013
HANNAH
Ser
em si, é ser e não ser! (Rodner Lúcio)
Masturbava-se
beijando Hannah, pensando ser uma mulher normal, uma mulher que trabalha e ama
seu marido e seus filhos... Massageava em ritmo frenético o clitóris; “eu
queria que fosse bem peluda", dizia-lhe Hannah. O espelho não lhe mostrava
o que queria ver. Teve sempre a impressão de não ser. O marido os dois filhos, Hannah
eram projeções do que não era. Não sabia o que era ser. O pai levava-a com ele
às missas de domingo e depois ao campo de futebol. Os homens se trocavam à
beira do campo falando besteiras. Não tinha nada a ver com o mundo do pai. A
mãe passava a tarde toda diante do espelho procurando rugas e cabelos brancos. Hannah
era o seu anverso, "para definir a personalidade animalesca que ela tem. É
uma mulher que não está aí para noções de propriedade; o negócio dela é consumação."
“Mãe nunca se viu no espelho!” Hannah dizia-lhe que “diante do espelho nos
projetamos, temos uma face que nunca se encontra na vida vivida”. Beijou Hannah
na boca e correu-lhe a língua pelo corpo. Aprofundava-lhe as entranhas o cabo
da escova. Passou a maior parte da vida querendo ser o que esperavam que ela
fosse. O corpo estremeceu. Fez a vida toda o que era certo, cuidou da casa, do
marido, dos filhos... Fechou os olhos e deixou a água do chuveiro escorrer
sobre o corpo relaxado. Hannah sorria-lhe. Era apenas uma mulher normal diante
do espelho.
terça-feira, 5 de março de 2013
ROSALVA
Rodovaldo estava resoluto: “hoje
ponho fim a esta história [...] Quero ver quem me segura!” Tomou o conhaque,
carregou a arma, colocou-a na cintura e saiu decidido: “Daria um tiro só, no
meio da cabeça”. À altura do km 15,
Rodovaldo foi abordado por uma patrulha rodoviária.
Não fizeram caso da arma. Rodovaldo tinha porte legal. Prenderam-no por dirigir
alcoolizado. Graças à nova lei, Rosalva, pôde dormir aquela noite.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O CINISMO DE DIREITA
O texto que segue é do Marco Marques, de quem discordo num só ponto: O Pedro Cardoso, no espaço em que estava, cumpria apenas um papel: era um personagem em cena!
Assistindo a entrevista de Diogo Mainard no Roda Viva e lendo a crítica de Edgar Puxa Saco a crítica que Pedro Cardoso fez aos proprietários das mídias invasora da privacidade de artistas, obtive dois exemplos que vou usar para desenvolver o tema deste texto.
Uma coisa que a gente vêm observando a mídia fazer (no caso, a grande imprensa) e deve fazer, é a cobrança de ética nas iniciativas tomadas por nossos políticos partidários. Porém, há uma série de elementos nessa crítica, que também não passam desapercebidos aos olhos do crítico sagaz e que sabe que a crítica não é algo que existe fora do tempo. A crítica também é parte daquilo que ela critica (a sociedade).
Diogo Mainard, quando perguntado se ele publicava informações contra o expresidente Lula sem verificar se eram informações verdadeiras ou mentirosas, ele respondeu que publicava tudo que chegava contra o Lula. Ele é contra o Lula - que na opinião dele é um político sem caráter - e tudo que chega contra o Lula ele "acredita".
Agora vamos analisar isso... Um determinado crítico que é funcionário de um grande veiculo de comunicação chega e defende a tese de que ele possui o "direito" de publicar tudo, verdades e mentiras sobre alguém, colocando-se no direito de caluniar uma pessoa e enganar seus leitores para que estes fiquem a favor do ponto de vista deste "crítico" e ajam de acordo com este ponto de vista. Esse mesmo individuo diz se posicionar contra o político que ele diz ser sem caráter. Mas, me respondam: Qual é o caráter do sujeito que faz da calunia e do de desinformar os seus leitores, uma norma? Vocês podem achar o Lula um bom ou um mau político. Não é essa a questão. O que está em questão aqui, é: Um pseudocritico pega pedaços de crítica, junta esses pedaços a falsas críticas e com elas informam desinformando. Isso não é corrupção? Sabendo que usa a estratégia de ludibriar o leitor, vocês dão moral a pseudocrítica de alguém que está pouco se lixando para o seu ponto de vista? (O que interessa a ele é impor o ponto de vista dele a você usando uma mascara de ético. O que me leva a consideração quando penso num sujeito deste tipo, que, o sujo está a falar do mal lavado; o cú está a criticar a bunda.) Bem pior que isso, VEJA, faz o leitor de trouxa que pensando ser informado e sabedor da critica, é na verdade só um fantoche do falso crítico. Se você é a favor de um jornalismo sério que te convença sem te enganar, não compre a Veja, nem compre nenhuma outra publicação da editora Abril, pois quem pública um jornalismo movido a corrupção, corrupto também o é. Em meio à entrevista, quando questionado sobre o que ele pensa das publicações da internet, Diogo fez apenas ofender os internautas dizendo que são todos uns trouxas leitores de mentiras e informações mal embasadas (a diferença é que as mentiras dele são bem embasadas?). Quando ele disse que na internet há muita mentira e há uma grande ignorância tanto em quem as publica quanto em quem as lê, concordei com ele, pois de fato há muita burrice na internet. Na internet, por exemplo, uma pessoa lê um comentário breve no Facebook, ou no Twiiter, de alguém criticando algo que outra pessoa disse ou fez (ou supostamente disse ou fez) e sem nem saber se realmente foi dito, e qual o contexto, o leitor internauta começa a imitar a fala do crítico (ou pseud como o Mainard) e todos os seguem por osmose falando mal de algo que eles nem buscaram se informar direito do que seja. Esse falar sem se aprofundar no tema - sendo que alguns até pedem desculpas de escrever um texto mais rebuscado (inclusive cheguei a ver até professores universitários fazerem isso), cria um movimento de ignorância efeito dominó. Isso tem bastante na internet. Porém, isso tem bastante na TV, tem bastante na mídia impressa, tem bastante no rádio e tem bastante na boca de Diogo Mainard. O cidadão Mainard faz uma merda e acusa outro de ter feito outra merda, como se ele tivesse o monopólio da merda e apenas a merda do outro fedesse, a dele fosse cheirosa. No entanto não interessa qual o veiculo de comunicação. O jornalista critico não pode fazer merda, fazendo da cabeça das pessoas uma privada. Mesmo porque, as merdas em grandes veículos de comunicação são até mais fedorentas do que na net, pois nesses grandes veículos os cagadores usam uma mascara falsa de profissionalismo (são profissionais em ludibriar, mentir, impor idéias as pessoas). Vamos considerar o verdadeiro motivo da irritação de Mainard com a internet.
A internet, assim como o mundo, possui o bom e o ruim; e o detalhe importante é que, independente da qualidade dos textos publicados em blogs ou em sites, a internet representa uma democratização da informação. Para o sujeito que costumava possuir o monopolio da informação, ou é uma puta puxa saco de quem possui esse monopólio, não interessa ver as pessoas livres para manifestar seus pensamentos, pontos de vistas, independente do nível desses pontos. Isso não interessa, pois ele é contra a democracia, ele é a favor da população continuar a ser manipulada e induzida a fazer o que ele pensa que as pessoas devem fazer. Então ele não somente é direita, mas ele também pertence a uma direta corrupta e com a visão de um ditador que de tão sordido, esconde-se numa pseudoimagem de critico. Esse pseudocrítico sabe que ele está induzindo as pessoas a agirem de acordo com o que convêm a ele. Ele é um cínico; enquanto boa parte dos leitores dele são apenas ignorantes que acreditam possuir senso critico - mas um senso critico sendo tão deturpado, violentado e manipulado como o é, torna-se um senso critico do mais ridículos dos sensos que se pode ter. - Pior do que o ignorante comum é o ignorante que acha-se informado e "critico".
Um outro exemplo de jornalismo que carece da isenção do jornalista que realmente possui ética, obtive lendo a critica de um colunista de um grande jornal, sobre a critica que Pedro Cardoso fez a mídia de fuxicagem sobre as celebridades. Ele, criticando o ponto de vista do ator, diz uma meia verdade ao dizer que Pedro não falou quem são os verdadeiros culpados por existir uma imprensa que faz da vida particular de artistas um produto de consumo de massas. No caso, o jornalista diz que o culpado é o povo. Reparem bem que eu disse que isso é uma meia verdade; inclusive achei interessante e instrutivo o artigo do Edgar Puxa Saco. É verdade que o povo tem sim sua parcela de culpa, afinal essa mídia vende revistas, dá audiência, e ninguém é obrigado a ser um consumidor dela. As pessoas compram porque gostam e são fúteis. Agora vamos falar do que o colunista não disse no texto dele e é uma parte fundamental da questão, negada por ele como se não existisse (a parte que o cínico não quer que você leitor fique ciente). A entrevista de Pedro no programa Na Moral, durou muito pouco tempo. O debate importante que ele iniciou duraria o programa inteiro e muito mais; porém, não interessa ao proprietário do grande veiculo de comunicação esse tipo de debate. Por isso o debate durou pouquíssimo tempo, e como é de praxe, aconteceu num horário que a maioria das pessoas estão dormindo.
Quando você coloca pessoas inteligentes e sagazes como o Pedro Cardoso, que não possuem a opinião prostituída e retalhada como a dos colunistas que citei nesse artigo, você está permitindo que muitas pessoas fiquem cientes de muitas coisas que sequer passam pelas cabeças delas. Concordando ou não com o Pedro, elas ficam realmente informadas conhecendo os vários lados de uma coisa e aí sim desenvolvendo um senso crítico não fundado em falácias. Isso interessa aos proprietários das maiorias das mídias de massas? Lógico que não. A estes interessa que a população permaneça ignorante, pois tendo uma plena consciência de suas condições na sociedade, as pessoas começam a questionar esses senhores que consideram-se os donos do mundo. A ele interessa que as pessoas permaneçam alienadas. Por esse motivo ele vai financiar uma imprensa de trivialidades e babaquices, como por exemplo colocar um afeminado para ficar falando mal da forma como as pessoas se vestem, e reduzir ao máximo o espaço de pessoas que tem opinião e sabem expressar essa opinião. Mantendo o nível intelectual da população baixo, eles não são questionados e mantem-se como classe dominante. Por que o colunista com sua pose de critico (na verdade um pseudocritico) não falou dessa outra metade? Por que ele só apresentou uma metade da questão como algo inteiro? A resposta é: Porque a direita só informa a população na base do cinismo e com a intenção de induzirem as pessoas a agirem do modo como eles querem que ela aja. Assim o que era para ser um informar e um debate inteligente em cima da informação, passa a ser uma briga entre setores políticos que estão menos preocupados com a realidade social do que estão em manter seus status e cargo político privilegiado que ocupam dentro do esquema político atual. Nisso os colunistas e críticos da maior parte da mídia, viram meros soldados que lutam para algum dos grupos políticos que querem manter-se como força de Estado.
Marco Marques.
[Ajude a divulgar as idéias deste texto reinviando ele para alguns contatos de sua caixa de e-mails. Em questão de apenas três minutos você estará fazendo algo muito importante. Obrigado pela atenção.]
Entre no blog do tonto (eu) que escreveu esse artigo clicando no link abaixo: BLOG: http://bar-teatro.blogspot.com.br/
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