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domingo, 5 de maio de 2013

NORMALIDADE



“A verdade tem a estrutura de uma ficção” (Slavoj Žižek)

No Lajeado o possível sempre foi uma luta como me lembra Christine Ramos: “O impossível é uma luta que travamos todos os dias contra a normalidade, para o possível acontecer”.
Quando era possível, mas não normal, minha mãe tomou-me pela mão, levou-me à escola e disse-me: “filha seja uma boa menina”. Naquela época o normal é que mulheres negras fossem domésticas, e domésticas não precisavam saber ler e escrever.
Quando era possível, mas não normal, Anastácio anunciou ter passado no vestibular.  Naquela época o normal era que os meninos do Lajeado, à idade de Anastácio, ou estivessem mortos ou estivessem presos ou, espremidos nos trens da central, buscando trabalho nos canteiros de obras na grande cidade.
Quando era possível, mas não normal, mãe enfrentou pai: “a menina vai continuar estudando”. Naquela época o normal era as mulheres serem mães-solteiras-viúvas aos quinze anos.
Quando era possível, mas não normal, voltar seguro para casa... O normal era a polícia invadir o Lajeado e bater e matar pretos pobres – e o Capitão Augusto fazia questão de lembrar: “não é uma questão de cor, é de localidade. No Lajeado ou se é marginal ou se é marginal” – Quando era possível, mas não normal, voltar seguro para casa, nos tornamos órfãos.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

VOGAIS (A)


 
Por Antônio Nicodemos

  

Transformado os dias em vogais, andava sem força para ser. Era nova ainda, mas trazia no rosto uma espécie de ódio herdado. Talvez da mãe que não gostava de crianças e que ao saber de sua gravidez passava os dias sentada na mesa da cozinha, a se lamentar pelo que podia ter feito a Deus para que lhe mandasse uma cria naquela altura da vida. E por carregar tanto ódio em si, odiava a menina, que cresceu ouvindo as mesmas lamentações diárias do ódio da mãe e que assim, herdado a antipatia natural da família, era.

Enquanto fingia não se irritar com o barulho da torneira da pia, mexia no crochê da toalha da mesa pensando no que poderia ser diferente em sua criação para que fosse diferente agora.

E como toda boa mal resolvida, culpava a mãe pela sinceridade da infância e acusava a mesma por se quer lhe ter apresentado um pai.

Pronto. Caso encerrado. A culpa de ser o que é e de não ser o que gostaria é da mãe. Pronto. Já é morta mesmo. Melhor culpar a morta, assim não precisaria tomar nenhum tipo de atitude a não ser se lamentar pelo passado e a família.

Depois de passar do meio dia as quatorze remoendo mentiras e inventando recordações da mãe, resolveu “perdoá-la”. E num ato quase de heroína desceu do terceiro andar, atravessou a rua e foi comprar cigarro. 

Estava sem desde a madrugada e se negava a descer pra comprar. Culpa da mãe, que nunca a estimou e jamais pensou se quer em instigá-la a desafios bestas, como o de comprar um maço de cigarros, por exemplo.

Enquanto contava as moedas e reclamava pela falta de uma moeda de vinte e cinco centavos para facilitar a grande audácia de um novo maço foi interrompida.

 - Falta quanto, moça?

- Vinte e cinco.

 - Eu tenho.

Como assim eu tenho, pensou. Um estranho chega e se quer se apresenta e ainda lhe oferece uma moeda de vinte e cinco? Se bem que nem oferece. Foi uma doação. Quase como aquelas caixinhas em fim de ano ou “ajude o lar do c***** a quatro”. Para ela, aquilo foi quase um estupro moral.

-Não precisa.

 - Já dei.

 -Mas não precisa.

 - Você tem a moeda?

-Não.

 -Então? São só vinte e cinco, moça.

 Foi o ápice! Se sentia quase uma prostituta. Pensou no que o moço poderia estar pensando. Como alguém não tem vinte e cinco centavos e ainda sustenta vícios? Não deve valer a água que toma!

 -Eu tenho na bolsa, vou pegar.

-Moça, são só vinte e cinco centavos, calma.

 Quase morre. Mal conhece, nunca viu na vida. Que tipo de intimidade teria dado para que um transeunte atirado lhe pedisse calma? 

 -Eu não quero mais o cigarro, pode ficar pra você.

 -Olha. Espera. Se faz tanta questão dos vinte e cinco...

 O abusado agora lhe estendia a mão. Na espera dos vinte cinco que acabara de emprestar e que jurou que não precisava, que era pra ter calma.

Respirou. Mas não uma vez. Quatro. Culpou a mãe novamente por nunca lhe ter apresentado uma figura masculina que prestasse e que agora lá estava ela, tremendo feito gata que corre de cão por conta da necessidade de socializar poucas palavras e o pior: Por conta de vinte e cinco centavos! 

-Calma.

 Disse o tal a segurando pelo braço.

 Agora já é demais, já é uma audácia e tanto. Segurar pelo braço, sem mais nem menos.

- Escuta, será que eu não posso mais comprar cigarro em Paz?

 - Mas moça, eu só quis ajudar.

 - Pensou se eu queria ajuda?

 - Te vi toda aflita. Natural.

 -Natural é uma ova. Toma os vinte e cinco.

 
O moço, assustado com a aberração que testemunhava não negou, imagina. Recolheu os vinte e cinco e pediu um café, pequeno.

 Ela, fingia ignorar a existência dele, sentou ao lado mas se quer olhava de rabo de olho, estava estática como se a qualquer momento lhe oferecessem sei lá, um pai.

Passada a vergonha do constrangimento por ter sido tão ela naqueles míseros segundos na busca da moeda de ouro disse:

 - O senhor me desculpa, é que me assustei e hoje em dia, já viu.

 - Tudo bem, sem problemas.

 Gelou. Agora tinha percebido a face do moço, já que antes quase o esfaqueou com as unhas em pensamento. Era loiro, olhos claros, barba rala, cara de bolso sem fundo. Tinha a barba por fazer e no tom de voz uma certa audácia velada, dessas que despe sem querer querendo.

Mantinha um sorriso de canto de boca carente e tarado. Depois de passar todos os tipos de pensamentos, e de ter ela achado a questão dele ser loiro um charme:

 - Tenho dessas as vezes, puxei minha mãe.

-Sempre a mãe.

 -Como?

 -Nada não. Ta mais calma?

 -Sim, sim. Não sei o que aconteceu, não dou dessas.

 Mentirosa. Uma vez, tendo passado em frente a um posto de gasolina voltou pra surrar de bolsa o frentista por conta de um simples e sincero: Gostosa.

 -Faz assim, esqueçamos.

-Já não esta mais aqui quem quase apanhou!

Meu Deus. E ainda tinha senso de humor. Não que ela ligasse pra isso, mas tinha. Ao ouvir isso pensou que deveria ter mantido o vestidinho em vez de por a calça pela manhã. Gosta das pernas, se deslumbra quando se banha e até nisso, tem certeza que puxou a mãe.

 -Moço, tem cartão?

 -Cartão?

 Ela pensava agora em algum outro tipo de possibilidade humorista do moço.

 -Preciso fazer uma ligação.

 Era a chance. 

 -Usa o de casa.

 A chance de se redimir pela moeda de vinte e cinco, a chance de se redimir pela grosseria, a chance de anular a imagem de pseudo esquizofrenia, a chance de ter pela primeira vez um desconhecido subindo as escadas e a chance de parecer um pouco menos identicamente gritante, a mãe.


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Antônio Nicodemo

É ator e iniciou sua pesquisa como dramaturgo em 2004, aos dezessete anos, quando fundou a Cia Teatro da Neura, onde continua em pesquisa até hoje. Em 2011, iniciou suas experiências como diretor em A Menina da Cabeça de Bola (Prêmio Ensaiando Um País Melhor), e seguiu com a direção do novo espetáculo do grupo, O Velório (ProaC), onde também assina a dramaturgia. Atualmente, também mantém a página "Pra eu dormir" com contos, crônicas e pensamentos. Facebook: Antônio Lagreca Nicodemo.




 

domingo, 10 de março de 2013

HANNAH

Ser em si, é ser e não ser! (Rodner Lúcio)
 
Masturbava-se beijando Hannah, pensando ser uma mulher normal, uma mulher que trabalha e ama seu marido e seus filhos... Massageava em ritmo frenético o clitóris; “eu queria que fosse bem peluda", dizia-lhe Hannah. O espelho não lhe mostrava o que queria ver. Teve sempre a impressão de não ser. O marido os dois filhos, Hannah eram projeções do que não era. Não sabia o que era ser. O pai levava-a com ele às missas de domingo e depois ao campo de futebol. Os homens se trocavam à beira do campo falando besteiras. Não tinha nada a ver com o mundo do pai. A mãe passava a tarde toda diante do espelho procurando rugas e cabelos brancos. Hannah era o seu anverso, "para definir a personalidade animalesca que ela tem. É uma mulher que não está aí para noções de propriedade; o negócio dela é consumação." “Mãe nunca se viu no espelho!” Hannah dizia-lhe que “diante do espelho nos projetamos, temos uma face que nunca se encontra na vida vivida”. Beijou Hannah na boca e correu-lhe a língua pelo corpo. Aprofundava-lhe as entranhas o cabo da escova. Passou a maior parte da vida querendo ser o que esperavam que ela fosse. O corpo estremeceu. Fez a vida toda o que era certo, cuidou da casa, do marido, dos filhos... Fechou os olhos e deixou a água do chuveiro escorrer sobre o corpo relaxado. Hannah sorria-lhe. Era apenas uma mulher normal diante do espelho.

 

 

terça-feira, 5 de março de 2013

ROSALVA


Rodovaldo estava resoluto: “hoje ponho fim a esta história [...] Quero ver quem me segura!” Tomou o conhaque, carregou a arma, colocou-a na cintura e saiu decidido: “Daria um tiro só, no meio da cabeça”.  À altura do km 15, Rodovaldo  foi abordado por uma patrulha rodoviária. Não fizeram caso da arma. Rodovaldo tinha porte legal. Prenderam-no por dirigir alcoolizado. Graças à nova lei, Rosalva, pôde dormir aquela noite.

 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O CINISMO DE DIREITA

O texto que segue é do Marco Marques, de quem discordo num só ponto: O Pedro Cardoso, no espaço em que estava, cumpria apenas um papel: era um personagem em cena!
 
Assistindo a entrevista de Diogo Mainard no Roda Viva e lendo a crítica de Edgar Puxa Saco a crítica que Pedro Cardoso fez aos proprietários das mídias invasora da privacidade de artistas, obtive dois exemplos que vou usar para desenvolver o tema deste texto.
Uma coisa que a gente vêm observando a mídia fazer (no caso, a grande imprensa) e deve fazer, é a cobrança de ética nas iniciativas tomadas por nossos políticos partidários. Porém, há uma série de elementos nessa crítica, que também não passam desapercebidos aos olhos do crítico sagaz e que sabe que a crítica não é algo que existe fora do tempo. A crítica também é parte daquilo que ela critica (a sociedade).
Diogo Mainard, quando perguntado se ele publicava informações contra o expresidente Lula sem verificar se eram informações verdadeiras ou mentirosas, ele respondeu que publicava tudo que chegava contra o Lula. Ele é contra o Lula - que na opinião dele é um político sem caráter - e tudo que chega contra o Lula ele "acredita".
Agora vamos analisar isso... Um determinado crítico que é funcionário de um grande veiculo de comunicação chega e defende a tese de que ele possui o "direito" de publicar tudo, verdades e mentiras sobre alguém, colocando-se no direito de caluniar uma pessoa e enganar seus leitores para que estes fiquem a favor do ponto de vista deste "crítico" e ajam de acordo com este ponto de vista. Esse mesmo individuo diz se posicionar contra o político que ele diz ser sem caráter. Mas, me respondam: Qual é o caráter do sujeito que faz da calunia e do de desinformar os seus leitores, uma norma? Vocês podem achar o Lula um bom ou um mau político. Não é essa a questão. O que está em questão aqui, é: Um pseudocritico pega pedaços de crítica, junta esses pedaços a falsas críticas e com elas informam desinformando. Isso não é corrupção? Sabendo que usa a estratégia de ludibriar o leitor, vocês dão moral a pseudocrítica de alguém que está pouco se lixando para o seu ponto de vista? (O que interessa a ele é impor o ponto de vista dele a você usando uma mascara de ético. O que me leva a consideração quando penso num sujeito deste tipo, que, o sujo está a falar do mal lavado; o cú está a criticar a bunda.) Bem pior que isso, VEJA, faz o leitor de trouxa que pensando ser informado e sabedor da critica, é na verdade só um fantoche do falso crítico. Se você é a favor de um jornalismo sério que te convença sem te enganar, não compre a Veja, nem compre nenhuma outra publicação da editora Abril, pois quem pública um jornalismo movido a corrupção, corrupto também o é. Em meio à entrevista, quando questionado sobre o que ele pensa das publicações da internet, Diogo fez apenas ofender os internautas dizendo que são todos uns trouxas leitores de mentiras e informações mal embasadas (a diferença é que as mentiras dele são bem embasadas?). Quando ele disse que na internet há muita mentira e há uma grande ignorância tanto em quem as publica quanto em quem as lê, concordei com ele, pois de fato há muita burrice na internet. Na internet, por exemplo, uma pessoa lê um comentário breve no Facebook, ou no Twiiter, de alguém criticando algo que outra pessoa disse ou fez (ou supostamente disse ou fez) e sem nem saber se realmente foi dito, e qual o contexto, o leitor internauta começa a imitar a fala do crítico (ou pseud como o Mainard) e todos os seguem por osmose falando mal de algo que eles nem buscaram se informar direito do que seja. Esse falar sem se aprofundar no tema - sendo que alguns até pedem desculpas de escrever um texto mais rebuscado (inclusive cheguei a ver até professores universitários fazerem isso), cria um movimento de ignorância efeito dominó. Isso tem bastante na internet. Porém, isso tem bastante na TV, tem bastante na mídia impressa, tem bastante no rádio e tem bastante na boca de Diogo Mainard. O cidadão Mainard faz uma merda e acusa outro de ter feito outra merda, como se ele tivesse o monopólio da merda e apenas a merda do outro fedesse, a dele fosse cheirosa. No entanto não interessa qual o veiculo de comunicação. O jornalista critico não pode fazer merda, fazendo da cabeça das pessoas uma privada. Mesmo porque, as merdas em grandes veículos de comunicação são até mais fedorentas do que na net, pois nesses grandes veículos os cagadores usam uma mascara falsa de profissionalismo (são profissionais em ludibriar, mentir, impor idéias as pessoas). Vamos considerar o verdadeiro motivo da irritação de Mainard com a internet.
A internet, assim como o mundo, possui o bom e o ruim; e o detalhe importante é que, independente da qualidade dos textos publicados em blogs ou em sites, a internet representa uma democratização da informação. Para o sujeito que costumava possuir o monopolio da informação, ou é uma puta puxa saco de quem possui esse monopólio, não interessa ver as pessoas livres para manifestar seus pensamentos, pontos de vistas, independente do nível desses pontos. Isso não interessa, pois ele é contra a democracia, ele é a favor da população continuar a ser manipulada e induzida a fazer o que ele pensa que as pessoas devem fazer. Então ele não somente é direita, mas ele também pertence a uma direta corrupta e com a visão de um ditador que de tão sordido, esconde-se numa pseudoimagem de critico. Esse pseudocrítico sabe que ele está induzindo as pessoas a agirem de acordo com o que convêm a ele. Ele é um cínico; enquanto boa parte dos leitores dele são apenas ignorantes que acreditam possuir senso critico - mas um senso critico sendo tão deturpado, violentado e manipulado como o é, torna-se um senso critico do mais ridículos dos sensos que se pode ter. - Pior do que o ignorante comum é o ignorante que acha-se informado e "critico".
Um outro exemplo de jornalismo que carece da isenção do jornalista que realmente possui ética, obtive lendo a critica de um colunista de um grande jornal, sobre a critica que Pedro Cardoso fez a mídia de fuxicagem sobre as celebridades. Ele, criticando o ponto de vista do ator, diz uma meia verdade ao dizer que Pedro não falou quem são os verdadeiros culpados por existir uma imprensa que faz da vida particular de artistas um produto de consumo de massas. No caso, o jornalista diz que o culpado é o povo. Reparem bem que eu disse que isso é uma meia verdade; inclusive achei interessante e instrutivo o artigo do Edgar Puxa Saco. É verdade que o povo tem sim sua parcela de culpa, afinal essa mídia vende revistas, dá audiência, e ninguém é obrigado a ser um consumidor dela. As pessoas compram porque gostam e são fúteis. Agora vamos falar do que o colunista não disse no texto dele e é uma parte fundamental da questão, negada por ele como se não existisse (a parte que o cínico não quer que você leitor fique ciente). A entrevista de Pedro no programa Na Moral, durou muito pouco tempo. O debate importante que ele iniciou duraria o programa inteiro e muito mais; porém, não interessa ao proprietário do grande veiculo de comunicação esse tipo de debate. Por isso o debate durou pouquíssimo tempo, e como é de praxe, aconteceu num horário que a maioria das pessoas estão dormindo.
Quando você coloca pessoas inteligentes e sagazes como o Pedro Cardoso, que não possuem a opinião prostituída e retalhada como a dos colunistas que citei nesse artigo, você está permitindo que muitas pessoas fiquem cientes de muitas coisas que sequer passam pelas cabeças delas. Concordando ou não com o Pedro, elas ficam realmente informadas conhecendo os vários lados de uma coisa e aí sim desenvolvendo um senso crítico não fundado em falácias. Isso interessa aos proprietários das maiorias das mídias de massas? Lógico que não. A estes interessa que a população permaneça ignorante, pois tendo uma plena consciência de suas condições na sociedade, as pessoas começam a questionar esses senhores que consideram-se os donos do mundo. A ele interessa que as pessoas permaneçam alienadas. Por esse motivo ele vai financiar uma imprensa de trivialidades e babaquices, como por exemplo colocar um afeminado para ficar falando mal da forma como as pessoas se vestem, e reduzir ao máximo o espaço de pessoas que tem opinião e sabem expressar essa opinião. Mantendo o nível intelectual da população baixo, eles não são questionados e mantem-se como classe dominante. Por que o colunista com sua pose de critico (na verdade um pseudocritico) não falou dessa outra metade? Por que ele só apresentou uma metade da questão como algo inteiro? A resposta é: Porque a direita só informa a população na base do cinismo e com a intenção de induzirem as pessoas a agirem do modo como eles querem que ela aja. Assim o que era para ser um informar e um debate inteligente em cima da informação, passa a ser uma briga entre setores políticos que estão menos preocupados com a realidade social do que estão em manter seus status e cargo político privilegiado que ocupam dentro do esquema político atual. Nisso os colunistas e críticos da maior parte da mídia, viram meros soldados que lutam para algum dos grupos políticos que querem manter-se como força de Estado.
Marco Marques.
[Ajude a divulgar as idéias deste texto reinviando ele para alguns contatos de sua caixa de e-mails. Em questão de apenas três minutos você estará fazendo algo muito importante. Obrigado pela atenção.]
Entre no blog do tonto (eu) que escreveu esse artigo clicando no link abaixo: BLOG: http://bar-teatro.blogspot.com.br/

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Processo


          
          Estava por terminar o expediente. O telefone tocou. Uma ocorrência no bairro nobre. Suicídio!?.

            Quando cheguei à cena, o local já estava devidamente isolado e meu parceiro logo passou-me as primeiras informações: “o porteiro disse que ela chegou por volta das 22h, parecia animada, cumprimentou-o e subiu. Disse também que quem a deixou na portaria foi uma amiga de nome..., que estamos verificando”. Entrei no apartamento. Sombrio, mas tudo muito bem organizado e limpo. Fui direto ao quarto. Sob a cama, arrumada em lençóis de cetim, sai de filó, blusa de rendinha, sutiã e calcinha de oncinha, os sapatos de fivela. “Parece que ela estava se preparando para sair”, observei. Sobre o criado mudo um belo anel de ametista, brincos artesanais, um bloco de anotações. “Tudo indica”, continuava meu parceiro, “morte por envenenamento”, indicando-me a lata de inseticida, a taça de champagne.   “O corpo?”, perguntei. “Ali”, apontou-me o banheiro. Pareceu-me uma filial da Avon. Na banheira de hidromassagem, o livro boiava e entre suas paginas o corpo nu. “Ela tinha pés cascudos”, observou meu parceiro. “Inspetor, conseguimos contatar a amiga”, avisou um policial. Ela está subindo. Pedi a meu parceiro que a interrogasse. “A amiga disse”, voltando minutos depois, “que ela estava de namoro com um certo Kafka”.  “Não foi suicídio!” Disse categórico. “Como assim?”, indagou meu parceiro. “Veja as marcas entre as paginas 45 e 46, ela foi violentamente prensada...”.

            ... “Alguém deve ter caluniado Josef k., porque, sem que tenha feito nada de mal, uma manhã foi preso...”  

domingo, 30 de dezembro de 2012

Scriptum


“Minha existência é como nuvens que se formam do norte e trazem o grande rio, e fazem com que as mulheres se apressem a tirar as roupas dos varais... Crianças correm à luz de estrelas... Minha existência é chuva de verão...” (Rodner Lúcio)

Tinha o hábito de escrever antes de datilografar. O teclado não lhe permitia um rabisco aqui outro ali, não lhe permitia rascunhar uma ou outra figura. Quando pensava um texto, pensava também sua ilustração. Era a quinta ou sexta página arrancada, amarfanhada, jogada ao chão. Pensava ao filho, desaparecido a mais de uma semana.  Cai num ângulo de móvel, uma peça em madeira de fins do século XVIII... “Aquele móvel, quanto o senhor me dá por ele?”.  Perguntou o genro, querendo ver aquele quarto livre o mais rápido possível daquela tralha. “Duzentos reais!”, respondeu o comprador. “Só isto?” “Ele está um tanto quanto destratado, vou ter que investir um bom dinheiro nele, para torná-lo rentável, e duvido que tenha algum lucro.” “Eu esperava mais!” “Duzentos e cinquenta é o que eu posso oferecer!” “E quando o senhor vem retirá-lo?” “Na segunda pela manhã, pode ser?” “Tudo bem, eu o aguardo então!” “Então até segunda! Tenha um bom dia!”... Meus dias estavam contados, após trinta anos, seria encontrado. Desde que fora morar com a filha, Ellizha não visitava aquela casa. Não fosse a insistência do genro em vendê-la tudo se manteria como estava e minha existência silenciosa se manteria. Imersa em recordações de infância, Ellizha me acolhe e desamassa-me e me desempoeira, e como quem acarinha um ente querido lê-me como se lê a Sagrada Escritura: “Minha existência é como lágrimas incertas no rosto, de quem fica e espera que o que parte, parta como o sol, apenas para atravessar a noite... Minha existência é vigiar a noite”... Eram traços da mãe, que desde o desaparecimento inexplicado do irmão, se consumira naquele quarto... “Minha existência é uma noite profunda”, lembrou Ellizha dos versos da mãe, quando soube dos corpos do Araguaia. Ellizha amarfanhou-me novamente e jogou-me ao mesmo canto. Trancou a porta: “Na casa não se mexe!”