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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A BUSSOLA


“Tenho minha própria história...”. Lidhia desceu ao ateliê e desejou-me como um presente, e esculpiu-me incontida, frenética, febril, alucinada. Lidhia gravou em mim versos de um poema, dando-me uma sina: “Desejar e realizar são duas coisas diferentes. E chega o momento em que devemos decidir: assumir uma vida de felicidade ou uma vida com um propósito. São dois caminhos bem diferentes. Para ser realmente feliz um homem tem que viver absolutamente o presente, sem pensar naquilo que já foi ou naquilo que virá. Para uma vida de significado, o homem está condenado a viver afundado no passado e se obsecar com o futuro.” Lidhia sumiu no meio da noite, deixando-me sobre a mesa sustentando um bilhete: “tenho minha própria história, e ela nasce hoje quando tomo em minhas mãos meu destino com todas as suas incertezas, jogo-me em suas águas sem saber se alcanço o oceano. Não posso mais deixar que as águas passem                ...”. Ele me trás em seu bolso, está pronto para receber o prêmio da Academia. Também no bolso o discurso que fará: “Minha história começou no dia em que Lidhia beijou-me e partiu, deixando-me um presente que ela mesma confeccionou, naquela noite eu decidi que daria significado à minha vida, entraria nas águas do destino, mas não à deriva. Lidhia me tinha deixado uma bussola e eu sabia, mesmo titubeando, onde queria chegar...”. Durante o discurso encontrou os olhos marejados de Lidhia na terceira fileira, a voz embargou, os olhos também marejaram, um silêncio longo tomou conta do auditório que explodiu em aplausos. Lidhia desapareceu, entre os convivas. Ele segurou-me com toda energia e convicção: “Lidhia nunca me abandonara”.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Adieu Mon Coeur


Ela olha pela janela. Seus olhos acompanham a neve a cair e cobrir a copa das árvores, os campos, os vales, os montes.  Sobre a mesa o livro aberto à página tal. Nela o pescador lança-se ao mar com a promessa de voltar. À margem, acenando-lhe, a amada ignora a tempestade que o espreita para lançá-lo nos braços Iemanjá.
Chove! Ele, pela janela, acompanha a enxurrada e o copo plástico dançando em suas águas. Sobre a cama o livro à página tal. Nela a heroína combina com a companheira um jeito de encontrar-se com o amado sem que o pai e os irmãos saibam. O que ela não sabe é que a companheira trama contra ela para conduzi-la em armadilha e tomar-lhe o amado.
Lá e cá o ar se enche com a voz de Edith Piaf: Adieu mon coeur/ On te jette au malheur / Tu n`auras pas mes yeux/ Pour mourir.../ Adieu mon coeur/ Les échos du bonheur/ Font tes chants tristes/ Autant qu`un repentir...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

CAOS PRIMORDIAL

Para Alexandre Squara

No principio era o CAOS, e o caos apenas era, não tinha titulo, não tinha nome. O CAOS era. Então veio a palavra, gerada, não criada; caos do caos.

“... graças às palavras, o mistério da natureza revela-se um pouco; pois nas próprias palavras reside uma parte das virtudes que elas designavam. Pronunciá-las ou escrevê-las de certa forma acaba por dar acesso aos segredos que elas recobrem, do mesmo modo que perceber as semelhanças abre caminho para o conhecimento das coisas...” (François Jacob).

A palavra não diz tudo, não revela a plenitude, revela olhares, percepções, sentimentos do espectador ante o percebido. Não diz só a coisa vista, diz mais de quem a ela admira (surpreende-se).

A Palavra era é será
A palavra não diz tudo, não revela a plenitude, revela olhares, percepções, sentimentos do espectador ante o percebido. Não diz só a coisa vista, diz mais de quem a ela admira (surpreende-se).

A Palavra era é será CAOS PRIMORDIAL!

Claudio Domingos

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


Confira o belo curta de Matheus Borges

http://www.youtube.com/watch?v=FZ2u4X4Z0bw&feature=player_embedded

...onde o Pii acaba mesmo?



Hoje, durante a tarde, zapeando os canais de Tv (que aliás, andam péssimos), paro em um deles... o apresentador fala (o cinegrafista mostra): Paranapiacaba; atentei "será que ele vai revelar onde o pii acaba?" (e me ri por dentro) - Não, me enganei... alguns lugares 'familiares', uma ou outra viela na lembrança... playground, gira-gira, balança... eis a história que um morador/comerciante contava com voz rouca:
"No carnaval de 2008, meu bar tava cheio, umas 15 pessoas tomando cerveja e conversando, era mais ou menos 21:00, um amigo meu (Ricardo), encosta na janela com um copo na mão... olha pro parquinho, não tinha ninguém, estava vazio, mas a balança infantil estava balançando... Ricardo nos chama pra ver... "Já tá bêbado Ricardão? Tá cedo ainda..." - ironiza...
ram alguns amigos. Curiosos, vamos até a dita janela... e num é que balançava mesmo?! Impressionaste... porque a balança tem umas correntes grossas... Aí Ricardo diz: "Vamos até lá?" Fomos... tava tudo meio escuro... um dos clientes teve a ideia de levar uma câmera que tinha na mão e iluminar um pouco o lugar com o flash da máquina... Devagarzinho íamos nos aproximando (e o flash disparando), chegamos bem pertinho, continuava balançando... não vimos nada! nadinha! Voltamos pro bar morrendo de rir da cara do Ricardão... ele ficou meio encucado o resto da noite com a história..."

Algum tempo depois, o cliente da câmera resolveu revelar as fotos daquela noite... Numa outra ocasião, voltou ao bar e e trouxe algumas pra gente ver... Uma em especial chamou nossa atenção... era uma foto da tal balança que o Ricardo tinha visto se mexendo sozinha... Nela um menino vestido de branco e com sapatinhos antigos, sentado, divertindo-se!...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Sevgilinin Yüzü

"Eu vou me matar! é só uma frase de efeito!", disse Sevgilinin Yüzü, "a morte não transfere responsabilidade"! E pulou. O sol modorrento de inverno apenas beijou-lhe complacente. E os prédios indiferentes mantiveram sua concretude inalterada... No mais o dia terminou como todos os outros. Os que se seguiram silenciaram um ato livre...

domingo, 5 de agosto de 2012

OCO DA TERRA

Eu nasci e vivi longo tempo de minha vida no Oco da Terra, um lugar úmido, sombrio, silencioso. Sons abafados chegavam-nos sem nos dar conta. Flash de luz de quando em quando nos alcançava as vistas.  Em Oco da Terra não havia palavra, apenas murmúrios tão surdos e incompreensíveis quanto os rumores que nos chegavam.  O olhar opaco, lúgubre, vazio era nossa linguagem.  Certa feita um estrangeiro, dizendo-se um dos nossos, desceu a Oco da Terra. Usou gestos e sons que não conhecíamos. Os sons era palavra – hoje eu o sei –,   e  doíam-nos os ouvidos incompreensíveis. Avançamos sobre o estrangeiro que se fazia como um de nós e o matamos. Depois disto, surgiram alguns que diziam ser este Aquele que nos viera apontar um outro mundo, um mundo preparado para nós, para além de Oco da Terra. Um mundo em que os sons abafados tinham sentido, o olhar brilhava invadido de luz.  Era preciso coragem para atravessar as frestas luminosas de Oco da Terra. Muitos haviam tentado depois que o estrangeiro que se dizia um de nós e que matamos nos visitou, nenhum havia voltado. Sem despedir-me dos meus – não me deixariam partir –, esperei o primeiro raio de luz e os primeiros rumores; lancei-me numa fresta.  À medida que avançava os rumores se intensificavam; meus ouvidos doíam, doíam, doíam. A luz, ao contrário, ia atenuando-se, e, a um certo momento, desapareceu. Não fossem os rumores cada vez mais altos, sentir-me-ia em Oco da Terra.  Meus ouvidos doíam, doíam, doíam. Estava decidido, estourassem-me a cabeça, iria até o fim.  Houve duas alternâncias de luzes intensas até seu desaparecimento até chegar a este mundo. Era noite, agora eu sei, quando venci minha jornada. O céu era cinza, e os rumores atenuados. Grilos, sapos, buzinas, risos, vozes, se confundiam a meu grito... Muitas vezes pensei em voltar para Oco da Terra, mas sei que os meus não me reconheceriam e o meu destino seria o mesmo do nosso que visto por estrangeiro o matamos. Aqui aprendi palavra e sei das coisas e dou-lhes nome. O mundo não é sombra e murmúrio: O mundo é discurso. E o discurso nos preenche de sentido, de certezas, de verdades. Em Oco da Terra tudo é o mesmo, e o mesmo é ordem.  Sinto saudades de Oco da Terra, do som abafado que nos chegavam, dos poucos raios de luz entre frestas, de sua umidade, do seu silencioso murmúrio. Sinto falta da sinceridade opaca, lúgubre e vazia do olhar dos meus. Aqui sou estrangeiro, lá, agora seria estrangeiro.  As palavras me encantam, mas estas luzes todas apenas afastam as sombras das coisas não as eliminam de mim. Oco da Terra é em mim. Outro dia me perguntaram: “Que lugar habita em ti?” Oco da Terra habita em mim. Meu grito é murmúrio e a luz de meus olhos opaca, lúgubre e vazia, diz-me: “És Oco, Opaco e Lúgubre. Palavras não te iluminam e preenchem. O silencioso vazio te preenche”. Não sou mais para os meus, a este mundo eu não pertenço. Sou Oco valendo-se de palavras.